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Diário de Bordo 7 – Mendoza

13/12/2024 a 21/12/2024

 

As boas-vindas à região vinícola da província de Mendoza se deram com o azul-turquesa da represa de Potrerillos, que se descortinou à nossa frente como uma miragem. Nos juntamos aos locais e desfrutamos das águas refrescantes num dia de sol. Caiaque e kitesurfe são os esportes mais praticados ali.

 

É incrível como as crianças são atraídas pela água e com a Serena não é diferente. Seja um chafariz, um córrego, um rio ou um lago, ela corria para brincar na água e mesmo depois de horas brincando incansavelmente, não era fácil convencê-la a partir. Mas ali, com muitos argumentos, a convencemos e partimos, porém logo nos arrependemos, quando numa estrada ruim tivemos dificuldades de achar um lugar agradável para passar a noite. À beira daquele lago azul teria sido bem o lugar perfeito, mas nem sempre fazemos as escolhas certas.

 

Seguimos pela R89, rota turística dos vinhedos que explora o Vale de Uco, com uma tradição vinícola de mais de 150 anos. Nossa base foi a praça San Martín da cidade de Tupungato. Sentados num de seus bancos, assistimos ao movimento dos locais tomando chimarrão e, depois, para suavizar o calor de 31 °C, finalizamos com um sorvete. O próximo dia foi dia de degustar uma parrillada no restaurante Patio Don Andrés para então seguirmos viagem passando pelas grandes vinícolas da região, que investiram não só nos parreirais de alta qualidade, mas na arquitetura moderna e imponente de suas sedes. Bodega Zuccardi, Salentein, La Azul são alguns dos grandes nomes que se destacam nessas paisagens. Não é por menos que o Vale de Uco carrega o título de ser a região vinícola mais conceituada de Mendoza.

 

Voltando a falar um pouco de José de San Martín (general que livrou a Argentina dos governantes espanhóis), mesmo que ele tenha nascido na Província de Corrientes, ele é um orgulho para os mendocinos, pois num cantinho de Mendoza, mais precisamente debaixo de um pé de maçã, os restos mortais do general e de sua tropa descansam após terem sido liquidados numa batalha. Tamanha a importância deste homem, o local foi transformado numa Reserva Natural e chamado de Manzana Historica. A macieira original morreu, mas um novo exemplar foi plantado no exato local e próximo a ela erguido o monumento de pedra Retorno a la Patria do artista Luis Periotti. Esperávamos que fosse um lugar tranquilo, de paz, descanso, mas que nada. O movimento de locais, seja nas ruas, feirinhas e eventos, ou acampados nos diversos campings ao redor da Manzana Historica, era intenso. E mesmo em meio àquela multidão, encontramos um casal de brasileiros, o Claiton e a Ana, do Projeto Estrada e Aventura, que pararam para um breve bate-papo conosco.

 

Seguimos em busca de tranquilidade, a qual encontramos numa estradinha no meio das infinitas linhas de parreirais, onde do teto do Lobo, assistimos a um lindo pôr do sol por entre as nuvens. Aqueles céus azuis e límpidos do norte argentino haviam ficado para trás. E à noite, um fato inusitado: fomos acordados por fortes estrondos, que pareciam ser tiros de canhão. Será que estávamos sonhando? A cada cinco segundos havia um disparo e em diversas direções. Parecia que estávamos numa guerra. Seria a batalha de San Martín e seu exército pela independência da Argentina? Olhávamos para fora e só víamos um céu com nuvens carregadas, iluminadas pelos raios que ramificavam entre elas. Os tiros continuaram noite adentro. Noutro dia, em Las Flores, fomos nos informar sobre o que estava acontecendo e nossa suspeita se confirmou: os tiros não eram os fantasmas do exército de San Martín e sim canhões anti-granizo que protegem as plantações das chuvas de pedra. O canhão é um dispositivo que emite ondas sonoras para impedir a formação de granizo, dispersando as nuvens, impedindo a cristalização do gelo ou fragmentando as pedras já formadas e assim reduzindo seu impacto na agricultura.

 

Continuamos pela rota do vinho até San Carlos, depois pegamos a R40 até Pareditas e por fim seguimos a RN143 rumo a San Rafael – uma estrada plana adentrando as monótonas estepes argentinas. Quando olhamos no retrovisor, vimos os Andes ficarem para trás ao ponto de quase desaparecerem da nossa vista. Essas paisagens menos dramáticas são um alívio para a cabeça. Às vezes é bom não ver nada de interessante.

 

Estocamos comida e vinho na pacata San Rafael e nos dirigimos para o Cañón del Atuel por um caminho bastante turístico com campings, hotéis e agências de turismo oferecendo rafting. Assim que chegamos no Camping Municipal Valle Grande, tivemos que proteger o Lobo debaixo do telhado do portão de entrada, junto com outros dois motorhomes. Um vendaval anunciava que uma forte tempestade de granizo estava por vir. Tempestades de granizo foram uma constante nos próximos dias na região. Depois de dois dias desfrutando do camping à beira do rio correntoso, quando pensamos em partir, os guardas-parque nos falaram que a estrada RN173 estava interditada devido a desabamentos pelas fortes chuvas. Ninguém nos faria voltar pela mesma estrada que viemos. Estávamos decididos a seguir aqueles 56 quilômetros de ripio e seguimos.

 

Passamos pela barragem Valle Grande e subimos serpenteando até um mirante para ver uma das vistas mais icônicas da região: a Ilha Submarino. Mais ao alto, condores planavam no ar aproveitando as térmicas. O céu escuro no horizonte anunciava que mais tempestades se aproximavam. Apressamos o passo para não pegarmos chuva no caminho e correr o risco de ficar presos na estrada estreita devido aos deslizamentos nos paredões que podem chegar a 260m de altura. Quanto mais adentrávamos no cânion, mais bonito ficava o entorno com suas pedras de variadas cores e formas esculpidas pelo vento e pelas águas do rio Atuel. Passamos por diversas estações de geração de energia até chegarmos, na metade da tarde, em El Nihuil, ao lado da represa de mesmo nome. Como já escrito, assim que falamos “lago” à vista, a Serena correu para dentro d’água de roupa e tudo. Caminhamos pela água até uma pequena ilha habitada por diversos pássaros e de onde tivemos uma linda vista dos Andes nevados ao longe e de alguns dos cones vulcânicos da região da Payunia.

 

Pegamos a RP180 e saímos na RN144, uma reta só, rumo novamente às montanhas que aumentavam de tamanho à nossa frente a cada quilômetro rodado. Uma planície sem fim que terminava na cordilheira. O entretenimento: adivinhar, com a ajuda do mapa, qual montanha era qual.

 

No ano de 1938 foi inaugurado o luxuoso Hotel Termas El Sosneado. Construído no meio dos Andes, a 2.180m de altitude e às margens do rio Atuel, a estrutura estava preparada para estadias longas, já que o local era remoto e exigia muito esforço para passar apenas alguns dias. Além do magnífico entorno, o hotel contava com piscinas de águas quentes e sulfurosas provenientes do vulcão Overo e com um fantástico restaurante servindo pratos tradicionais, oferecendo um menu único e diferente dos outros lugares. Com tantos atrativos, os clientes não mediam esforços para se hospedar em El Sosneado e, consequentemente, o hotel estava sempre lotado. Porém, em 1953, por razões desconhecidas, o hotel fechou suas portas e, um tempo depois, foi totalmente abandonado. Hoje, suas ruínas permanecem para relembrar os glamorosos tempos e viraram um ponto de parada para os viajantes que encaram os sessenta quilômetros de péssimo ripio vale adentro.

 

Nós estávamos indecisos se faríamos todo aquele esforço simplesmente para ver ruínas. E, em meio à conversa, numa brincadeira com a Serena, falamos que iríamos nos hospedar num hotel bem chique, com águas termais e com direito a almoçar no restaurante. Ninguém mais tirou isso da cabeça dela e a historinha virou motivação para nós três. Encaramos a estrada ruim e já nos primeiros quilômetros fomos compensados por um cenário espetacular com o imponente Cerro Sosneado (5.189m de altitude) à nossa direita iluminado pela luz do final de dia. Os Andes são incríveis, pois cada estrada e cada vale é único e tão fascinante quanto o anterior. Dessa vez acertamos na nossa decisão.

 

Chegamos 20h45, mas o hotel já estava lotado. Havia dois carros brasileiros acampados entre as paredes para se protegerem do vento. Sem vaga para nós, paramos próximo das termas e, quando encostamos na água da grande piscina, que frustração: mais para fria do que para quente! “Está explicado por que o hotel foi abandonado”, falou o Roy. Uma pequena lagoa externa, onde brotava a água, estava mais gostosa e, de roupas íntimas, fomos os três dar um mergulho. O vento estava congelante e o segredo era ficar com o corpo todo dentro d’água. Uma hora depois, criamos coragem e saímos, mas já estava escuro (uma noite linda, estrelada e iluminada pela luz da lua). Corremos para o carro e preparamos uma macarronada à la carbonara. Fomos dormir cheirando a enxofre, o que desagradou a Serena, que dizia que nunca mais iria numa terma.

 

Se o entardecer no vale foi incrível, o amanhecer não ficou para trás. Levantamos cedo, tomamos café e nos banhamos novamente nas termas. Depois, claro, fazer o check-in e cumprir com a promessa de almoçar no hotel. Nós não estávamos tão empenhados num primeiro momento, mas quando a Serena coloca alguma coisa na cabeça, ninguém mais tira. E promessa é dívida. Daí vem a frase de que “os mais novos puxam os mais velhos” e, no final, foi muito divertido.

 

Levamos mesa, cadeiras, pratos, copos, talheres, guardanapos… tudo como manda o figurino de um hotel chique. Demos a entrada, visitamos os quartos e todas as dependências do hotel e, às 14h, sentamos no grande salão ao lado da lareira para almoçar nosso sanduíche natural com suco de laranja. Bem nesse momento começou uma ventania e era cadeira voando para lá, guardanapos voando para cá, poeira varrendo nossa cara que tínhamos que fechar os olhos para comer. Mais parecia um hotel mal-assombrado e, na hora, lembramos da música Hotel California, do Eagles: “You can check out any time you like, but you can never leave (Você pode fazer o check-out qualquer hora que quiser, mas nunca mais sairá).” Que diversão!

 

Outro fato interessante que descobrimos sobre o vale: vinte e um quilômetros mais à frente inicia uma trilha acompanhando o rio Las Lágrimas até um memorial onde se encontram os destroços do voo 571 da Força Aérea Uruguaia que caiu nos Andes próximo da fronteira com o Chile no ano de 1972. Essa história ficou conhecida pelo desenrolar do resgate de seus sobreviventes e o que eles fizeram para se alimentar no tempo em que ficaram na montanha. A história é contada no filme A Sociedade da Neve.

 

Mais ao sul, entramos noutro vale dos Andes que segue até a renomada estação de esqui Las Leñas. O nosso destino estava logo no início, onde há dois buracos erodidos conhecidos como Pozo de las Ánimas. São duas grandes depressões com água em seu interior que se formaram pelo colapso do teto de cavernas formadas por rios subterrâneos, similares aos cenotes mexicanos. A lenda conta que no fundo dos poços se escutam lamentos, por isso seu nome é Poço das Almas. Ao nível do solo, pouco dá para se ver e entender as dimensões dos buracos. O terreno é muito instável e, por questões de segurança, é proibida a aproximação. No maior deles, se cair, nunca mais sairá. Lembramos dos buracos cônicos feitos pelas formigas-leão na África para capturar outros insetos. As paredes são íngremes e o solo arenoso tão escorregadio que são uma armadilha natural. O inseto patina para sair até que é capturado pela formiga-leão que está na sua base. Somente com o uso do drone pudemos entender melhor as dimensões e beleza do lugar. A água do poço mais profundo era azul e a do mais raso estava prateada devido ao vento que batia nela.

 

Mas a grande atração do trajeto ainda estava por vir. O Parque Provincial La Payunia foi uma daquelas surpresas inesperadas que nos encantou e ganhou um lugar especial em nossos corações. Dirigimos pela Ruta 40 até o local denominado La Pasarela, onde se pode apreciar como a água abriu seu caminho por um derrame vulcânico formando um pequeno e profundo cânion negro. Linda a textura da pedra, porém um WC a céu aberto devido à proximidade da estrada principal. Ali, pegamos estradas vicinais passando por poços de extração de petróleo. No caminho, encontramos apenas uma mulher local com duas crianças em sua caminhonete procurando uma ovelha perdida de seu rebanho e ela não entendeu por que queríamos seguir por ali se era um nada no meio do nada. Chegamos na entrada do parque pelas 18h30 e, como não havia ninguém, resolvemos acampar ali mesmo e seguir noutro dia com o nascer do sol. Mais tarde, os guardas-parque apareceram e nos recepcionaram num pequeno museu sobre o local e nos explicaram as regras de visitação: poderíamos atravessar o parque sem pagar, porém não poderíamos fazer paradas; ou, se pagássemos a entrada, poderíamos fazer paradas, mas como não tínhamos guia, não poderíamos deixar a estrada principal e somente visitar lugares nas suas imediações.

 

Escolhemos a segunda opção e, como planejado, partimos com os primeiros raios de sol do dia. Com mais de 800 vulcões, é um dos campos vulcânicos de maior densidade da Terra, o que resultou numa paisagem de outro planeta. A estrada de lava preta com muita “costela de vaca” contrastava com o amarelo das flores no campo e, ao fundo, se destacavam as silhuetas nevadas dos vulcões Payún Matru e Payún Liso, este último com 3.680 metros de altitude, sendo o mais elevado da região. À noite, choveu muito e com previsão de seis graus. O resultado: ocorreu uma forte nevasca nas montanhas, o que deixou a paisagem ainda mais incrível. Eram apenas 22 quilômetros para cruzarmos o parque, mas nosso progresso foi lento. Vimos gaviões, guanacos (muitos com filhotes) e nandus-de-darwin que saem correndo desesperadamente antes mesmo de pensarmos em parar e que, acreditamos, tamanho o desespero, não param nunca mais de correr. Vacas também foram avistadas. A Serena, empolgada, começou a contar os animais, mas depois perdemos as contas.

 

Paramos na Pampa Negra, uma grande planície de cor preta devido às erupções vulcânicas; vimos de longe o vulcão Morado com suas cores avermelhadas; passamos pelo Campo de Bombas lançadas por uma erupção; e, por último, no Museu de Cera, um jardim de esculturas de lavas vulcânicas. Deixamos para tomar café na estrada, mas só conseguimos três horas depois, quando saímos do parque, de tão entretidos que estávamos com suas belezas. O café, na verdade, virou almoço. Mas a aventura continuou, pois seguimos por uma trilha que poucos carros cruzam passando sobre lajes de lava, com o vulcão Payun Liso ao nosso lado. Era aquele nada que a mulher local se referiu no dia anterior e de que tanto gostamos. Um nada incrível! É nesses lugares que nos sentimos parte da natureza. O progresso estava lento devido às condições do terreno e, para não perdermos as festividades do Natal em Bariloche, decidimos pegar a direita e saímos novamente mais ao sul na Ruta 40, onde o rio Grande se encontra com o rio Choqueira Có, para então entrarmos na província de Neuquen.

 

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