31/01/2025 a 07/02/2025
Ainda em Puerto Varas, aproveitamos para planejar nosso próximo destino: a Carretera Austral. Porém, levamos um banho de água fria já de cara, quando fomos comprar a passagem para a balsa entre Hornopirén e Caleta Gonzalo. Era dia 29 de janeiro e conseguimos vaga apenas para o dia 7 de fevereiro. Dez dias de espera! Pretendíamos iniciar o trajeto no dia 31 de janeiro, mas a Carretera Austral já começava nos ensinando uma de suas primeiras lições: não somos nós que decidimos completamente o ritmo da viagem por lá. Balsas, clima e condições da estrada fazem parte do roteiro tanto quanto os lugares que pretendemos conhecer. E nós teríamos que nos adaptar.
A Carretera Austral, a famosa Ruta 7, começa ao norte, em Puerto Montt, e segue por cerca de 1.200 quilômetros até Villa O’Higgins, no extremo sul. Boa parte do trajeto ainda não é asfaltada e o percurso oficial envolve quatro travessias de balsa. Mais do que uma estrada, ela é resultado de um enorme projeto de integração territorial e carrega uma história diretamente ligada ao período da ditadura de Augusto Pinochet. Em 1976, o governo chileno decidiu avançar com a construção de uma ligação terrestre que pudesse integrar a Patagônia chilena ao restante do país. Naquela época, enormes áreas da região eram praticamente inacessíveis por terra a partir do Chile, e muitas comunidades mantinham suas conexões por meio de trilhas precárias ou através da Argentina. O desafio era gigantesco. A estrada precisaria atravessar bosques temperados e subárticos, montanhas nevadas, rios caudalosos alimentados pelas geleiras, áreas alagadas e territórios sujeitos ao imprevisível clima patagônico. Além disso, havia o vento, a chuva, o frio e enormes distâncias entre pequenos núcleos populacionais. Foram necessários mais de vinte anos de trabalho e centenas de milhões de dólares para construir a estrada, que acabou se tornando uma das maiores obras de infraestrutura da região.
Hoje, a Carretera Austral representa desenvolvimento, integração e acesso para milhares de pessoas, além de ter impulsionado o crescimento de cidades e do turismo na região. Mas uma obra dessa dimensão também tem seu outro lado. A abertura da estrada significou desmatamento, transformação de paisagens e grandes impactos ambientais em uma região extremamente sensível. A mesma estrada que trouxe acesso e oportunidades também abriu caminho para uma ocupação maior e para uma exploração mais intensa de áreas de difícil fiscalização. É uma contradição que acompanha a própria história da Carretera Austral: a estrada que aproxima e integra também transforma profundamente o território por onde passa.
Nosso objetivo, porém, nunca foi simplesmente completar os cerca de 1.200 quilômetros da Carretera Austral e poder dizer que fizemos a estrada inteira. Nas nossas viagens, quase sempre preferimos percorrer o maior trajeto possível por terra, mesmo que isso signifique sair da rota principal, fazer desvios e levar mais tempo. Não queremos apenas chegar ao final de uma estrada; queremos entender o que existe ao redor dela. Por isso, como teríamos dez dias até a balsa de Hornopirén, decidimos aproveitar o tempo. Em vez de seguir pela costa a partir de Puerto Montt, passaríamos pelo Lago Llanquihue e desceríamos pelo fiorde de Reloncaví em direção ao vale de Cochamó, explorando a costa a partir de Contao, para então entrarmos na Ruta 7. A espera pela balsa, que inicialmente parecia um problema, acabaria se tornando parte da nossa viagem.
Nosso primeiro acampamento foi às margens do rio Petrohué, cerca de cinco quilômetros antes de ele encontrar o mar. Era um daqueles lugares simples que acabam se tornando especiais justamente porque não existe muita coisa para fazer. Montamos nossa casa perto do rio e logo a Serena apareceu com sua programação habitual: queria brincar. Em nossa rotina de viagem, enquanto um de nós cuidava dos afazeres do acampamento, o outro precisava fazer companhia para ela. Inventamos uma brincadeira de esconde-esconde no meio de uma touceira de plantas altas, aproveitando as folhagens para desaparecer uns dos outros.
Depois da janta, quando nós dois já estávamos cansados e pensando em dormir, Serena decidiu que ainda não era hora de terminar a brincadeira. E como convencer uma criança de que as 23 horas é hora de dormir quando ela está acampando no meio da natureza? Não conseguimos. Então fomos os três brincar de esconde-esconde no escuro. Sem lanterna, apenas com a luz da lua, tentando encontrar uns aos outros no meio das plantas. No começo parecia uma daquelas ideias absurdas para se fazer aquela hora, mas acabou sendo muito divertido. E, quando finalmente pensamos que a noite havia acabado, Serena ainda queria mais.
Terminamos então fazendo uma caminhada noturna. Era curioso pensar que havíamos começado aquele dia preocupados com balsas, horários e planejamento da Carretera Austral e terminávamos ali, às margens de um rio, contemplando as estrelas e procurando os satélites que atravessavam silenciosamente o céu. Não havia atração turística, mirante ou trilha famosa. Havia apenas um rio, algumas plantas, um céu estrelado e nós três brincando no escuro. Este momento era a prova do que realmente buscávamos nesta viagem: não apenas percorrer uma estrada, mas estar em família.
Seguimos pelo fiorde de Reloncaví em direção a Cochamó. A paisagem já começava a mudar e a estrada acompanhava a água, entrando e saindo entre pequenas comunidades, propriedades rurais e áreas de floresta. Em Ralún El Este encontramos uma festa costumbrista, dessas celebrações que preservam um pouco da cultura e dos costumes locais. O lugar estava movimentado e havia barracas de comida por todos os lados: anticuchos, os tradicionais espetinhos de carne; choripapas, uma combinação de batata frita com salsicha; ceviche de salmão; cachorros-quentes cobertos com tomate e creme de abacate; além de empanadas. Para a tarde ainda estavam programados baile e bingo. Essas festas foram uma das coisas que mais gostamos de encontrar pelo caminho, porque, apesar de todo o turismo que vem crescendo na região, ainda existe uma vida local que acontece independentemente dos visitantes.
Em Cochamó, caminhamos pela orla movimentada da pequena cidade. Ali encontramos uma igreja de madeira muito bonita, a Iglesia Parroquial María Inmaculada, construída no tradicional estilo chilote e revestida com pequenas telhas de madeira de alerce. Diante das águas azuladas do fiorde, parecia deslocada no tempo, como uma construção saída de um livro de histórias. Ao fundo aparecia o vulcão Yates, com seus 2.187 metros de altitude.
O Vale de Cochamó é conhecido como o “Yosemite chileno” por causa dos gigantescos paredões verticais de granito rosado que cercam os vales e atraem escaladores do mundo inteiro. Nós, porém, estávamos apenas atravessando a região, seguindo nosso caminho pela costa. E logo encontramos a estrada em obras. Máquinas trabalhavam em vários pontos e, em alguns trechos, a rodovia estava sendo literalmente aberta à base de dinamite. O caminho era estreito, havia muita poeira e, em determinados momentos, quase não havia passagem. Tivemos sorte de chegar justamente quando a estrada estava aberta. Se tivéssemos encontrado a detonação acontecendo, provavelmente teríamos ficado esperando por bastante tempo.
Seguimos até Puelo, onde acampamos às margens do rio de mesmo nome. O lugar era tranquilo e o rio, conhecido pela pesca esportiva, despertou imediatamente o interesse do Roy. Ele havia trazido o equipamento e não demorou muito para começar a procurar um bom ponto para lançar a linha. Pescar é uma das atividades que fazem o tempo mudar de velocidade. Não há muito o que fazer além de esperar, observar a água e tentar entender onde o peixe pode estar.
Seguimos então em direção a Llanada Grande. Para chegar até lá era preciso atravessar o lago Tagua-Tagua, um dos lugares mais bonitos daquele trecho. O lago é de um azul quase exagerado, cercado por montanhas, cachoeiras e uma floresta valdiviana praticamente intocada. Partimos de Puerto Canelo às 15h55 e, quarenta minutos depois, desembarcamos em Puerto Maldonado. Imaginamos que conseguiríamos ver muito mais da paisagem e, principalmente, que teríamos uma relação mais próxima com o rio Puelo e com a água. Acabamos um pouco decepcionados, porque grande parte das margens estava ocupada por propriedades privadas e o acesso era bastante limitado.
A partir dali seguimos aproximadamente 40 quilômetros até Llanada Grande e depois continuamos até uma ponte sobre o rio Puelo, onde decidimos acampar. O lugar era bonito e tranquilo, e o Roy, naturalmente, não perdeu a oportunidade de tentar pescar. No primeiro dia voltou sem nada. Mas a pescaria estava apenas começando.
No dia seguinte, porém, descemos os três juntos ao rio. Roy e Serena alternavam a vara. Era bonito observar a concentração dos dois, a expectativa a cada movimento da linha e aquela pequena disputa silenciosa para ver quem conseguiria o primeiro peixe. Em determinado momento, o Roy falou: “Agora eu vou pegar um peixe”. E pegou! Serena ficou impressionada com o acontecimento e quis saber como ele havia conseguido. O pai simplesmente respondeu: “Tem que acreditar”. Ela acreditou. Pouco depois, também pegou uma pequena truta — e ainda perdeu outra, maior. Serena teve mais uma lição naquele dia: quando a gente acredita que vai conseguir, às vezes consegue mesmo. Mas a pesca tem muito mais a ver com paciência e persistência do que com certeza. Você pode passar horas olhando para a água sem acontecer absolutamente nada e, de repente, tudo muda em poucos segundos.
Moradores locais nos contaram que a quantidade de trutas havia diminuído bastante nos últimos anos por causa da pesca excessiva. Era uma informação que contrastava com a imagem de abundância que tínhamos daquele lugar. A região parecia praticamente selvagem, mas mesmo lugares tão remotos sofrem com a ação humana.
A estrada seguia até Segundo Curral, onde encontramos novamente obras. Estávamos a cerca de dez quilômetros da fronteira com a Argentina. O caminho praticamente terminava ali, mas há planos de continuar avançando e, no futuro, abrir uma passagem de fronteira com o país vizinho. Se isso acontecer, aquela região provavelmente mudará bastante. Uma estrada que hoje termina praticamente no fim do mundo poderá se transformar em uma rota de passagem internacional. É difícil saber como será quando isso acontecer.
Na volta, fizemos algumas imagens de drone da ponte e seguimos explorando a região. Chegamos até o Lago Blanco, que refletia perfeitamente as montanhas e a vegetação ao redor e depois fomos até a Fazenda Campo Eggers, onde existe uma cachoeira de aproximadamente 120 metros. O caminho era ruim, muito ruim, e na volta a estrada pareceu ainda pior. Foram muitas paradas para colher amoras selvagens. Serena ama! O dia estava lindo, com céu aberto e muito sol. Depois de toda aquela estrada, cruzamos novamente o lago de ferry e continuamos viagem ao sul.
Nesse momento Serena decretou que já não aguentava mais ver lagos e rios. Ela queria ver o mar. E lá fomos nós, atrás do mar.
Seguimos por uma estrada de chão estreita, com muita poeira, acompanhando novamente o fiorde Reloncaví. A criação de salmão era muito presente na paisagem, com diversas estruturas espalhadas pelas águas. Depois de tantos dias entre rios, lagos e montanhas, finalmente encontramos o mar. Acampamos no molhe de Contao, junto a um motorhome francês e foi curioso perceber como uma coisa tão simples quanto sentir novamente o cheiro da água salgada podia fazer tanta diferença. Vimos muitos golfinhos e cisnes, e o pôr do sol sobre o mar foi daqueles que fazem a gente parar de fazer qualquer outra coisa e simplesmente olhar.
No dia 5 de fevereiro, Serena acordou empolgada. Conforme o calendário da escola em São Bento do Sul, aquele seria o início de seu 1º ano do ensino fundamental, uma nova etapa que começava de uma maneira bastante diferente do habitual: no meio de uma viagem pela Patagônia. O dia amanheceu chuvoso, o que acabou sendo ótimo para permanecermos mais tempo dentro do carro e estudar. Enquanto isso, o Roy continuava com seus trabalhos de escultura. Havia terminado a colher da Serena e começado uma caneca. É curioso como, mesmo estando em movimento, cada um de nós acaba criando pequenas rotinas. A viagem não era apenas deslocamento. Era também escola, trabalho, brincadeiras, comida, pesca, escultura, observação e, principalmente, convivência.
Em determinado momento decidimos procurar moluscos. A Serena chama de “mushloons”. A ideia veio, em parte, de uma história que vivemos na Noruega, quando coletamos mariscos num passeio de canoa e fizemos uma macarronada para a janta. Momento registrado em nosso documentário Latitude 70 o qual ela assistiu centenas de vezes. No filme, o Roy pergunta: “Michelle, o que vai sair aí?”, e ela responde: “Se tudo der certo, uma macarronada de mariscos”.
Nossa busca por mariscos acabou nos levando a conhecer uma região muito interessante, onde as pessoas ainda constroem barcos de forma artesanal. O Roy ficou completamente empolgado ao ver um homem trabalhando sozinho na construção de um barco enorme. Ele contou que aquele barco tinha aproximadamente 20 metros de comprimento por 6 metros de largura e que o trabalho levaria cerca de um ano. A estrutura principal era feita com toras enormes, formando a espinha do barco. Para conseguir moldar as tábuas em curvas, o construtor as fervia antes de colocá-las na estrutura. Passamos por vários pequenos estaleiros improvisados, de fundo de quintal, onde havia dois ou três barcos sendo construídos ao mesmo tempo. O Roy ficou olhando tudo aquilo e escreveu no diário que sentiu vontade de construir um barco.
Nas proximidades de Teltelhue finalmente encontramos alguns moluscos presos às pedras e paramos para coletá-los. Estávamos animados, especialmente a Serena, que já vinha procurando os tais “mushloons” havia algum tempo. Quando terminamos, voltamos em direção ao carro e, de repente, veio a pergunta que fez o estômago da Michelle embrulhar: onde estava a chave do carro?
Ela havia trancado o carro e ficado com a chave quando fomos até a praia. Tínhamos uma chave reserva, mas perder o molho inteiro seria um transtorno enorme. Além disso, havia o alarme. Olhamos para o chão e vimos centenas de conchas espalhadas, muitas delas prateadas sob o sol. Encontrar um molho de chaves no meio de tudo aquilo parecia praticamente impossível. Voltamos nós três em direção ao mar, refazendo o caminho que havíamos percorrido, aproximadamente cem metros, olhando para cada pedra e para cada espaço entre as conchas. A Michelle já estava imaginando o tamanho do transtorno quando, de repente, o Roy deu de cara com a chave no chão. O impossível aconteceu. Que alívio! O alarme foi desacionado, o carro ligado e conseguimos seguir.
Mais adiante encontramos uma praia protegida do vento por alguns arbustos. A areia estava coberta de conchas brancas que refletiam fortemente o sol do meio-dia. Roy e Serena ficaram empolgados procurando mais mariscos e almejoas no vai e vem das ondas. Levamos duas panelas de moluscos para ferver, tiramos os animais das conchas e preparamos a famosa “macarronada de mariscos na manteiga”. Serena experimentou o prato e não gostou. Acabou comendo apenas o macarrão. Aqui em casa temos uma regra: é preciso pelo menos experimentar coisas novas. Se não gostar, não precisa comer, mas tem! que experimentar.
Durante a refeição encontramos quatro pequenas “pérolas” dentro dos mariscos. A princípio pensamos que fossem apenas grãos de areia, mas depois percebemos que eram pequenas formações arredondadas. O que mais nos chamou a atenção naquela praia, porém, foi o silêncio. Não havia vento e quase não se ouvia o barulho das ondas. Tínhamos uma imensidão de água diante de nós, completamente tranquila. Vimos golfinhos e talvez alguns lobos-marinhos. A costa de Contao foi uma das partes de que mais gostamos antes de entrar definitivamente na Ruta 7. Havia praias acessíveis, pouca gente e uma sensação de liberdade de que tanto gostamos.
Seguimos até Hornopirén, que já tinha uma infraestrutura turística muito maior. A cidade estava agitada, principalmente na praça principal, a chamada Praça Vermelha. Depois de tantos dias passando por lugares pequenos e remotos, Hornopirén parecia quase uma metrópole. Precisávamos organizar tudo antes da travessia da balsa: combustível, água, mercado, banho e lavanderia. Acampamos ao lado do rio Negro e tentamos deixar tudo pronto para a travessia.
Parecia que o dia da balsa nunca chegaria. Estávamos esperando desde o dia 29 de janeiro, quando compramos a passagem, mas, quando finalmente o dia chegou, tivemos a impressão contrária: o tempo havia passado rápido demais e parecia que faltava tempo.
Na fila da balsa encontramos novamente uma família que já havíamos visto em Puerto Varas: Javier (espanhol), Dana (canadense) e seus filhos Clara, de sete anos, e Lucas, de nove (franceses). Eles também seguiriam de balsa e depois continuariam descendo em direção a Ushuaia, praticamente no mesmo ritmo que nós. A balsa atrasou e a espera foi longa. Clara e Serena transformaram o Lobo em uma casa de bonecas, enquanto os adultos ficaram do lado de fora, sentados na calçada, conversando e observando o movimento.
Ás 23 horas, embarcamos. Subimos para acompanhar a partida e depois voltamos para nossa “cabine”: o próprio carro. Era permitido dormir dentro dos veículos durante a travessia, e foi exatamente o que fizemos. O primeiro trecho tinha aproximadamente 58 quilômetros, de Hornopirén até Leptepu. O barulho constante do motor nos lembrou imediatamente a Rússia, quando ficamos 40 dias viajando e dormindo dentro do carro ligado. Às 2h20, bateram na porta para nos acordar. Às 2h40 desembarcamos. O Roy dirigiu aproximadamente dez quilômetros de asfalto até Fiordo Largo. Às 3 horas embarcamos em uma segunda balsa, bem menor, para uma travessia de apenas sete quilômetros até Caleta Gonzalo. Partimos às 3h10 e desembarcamos às 3h55. Dirigimos apenas mais um quilômetro e paramos em um estacionamento à beira da estrada, junto com outros motorhomes. Era madrugada, estávamos cansados e, finalmente, tínhamos chegado àquela parte da viagem que esperávamos havia tantos dias: entrávamos de verdade na Carretera Austral.
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