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	<title>Outras Aventuras &#8211; Mundo por Terra</title>
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	<description>Duas voltas ao mundo de carro!</description>
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		<title>2005-2006: Deserto do Atacama e Uyuni [Roy Rudnick e Michelle Francine Weiss]</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 03:01:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em agosto de 2005 tomamos a decisão de nossas vidas: partir no início de 2007 para uma viagem de volta ao mundo de carro. Já fazia um bom tempo que o Roy não realizava nenhuma viagem, que eram de costume, anuais. Nosso namoro estava firme e forte, porém, precisávamos testar como nos comportaríamos juntos numa [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Em agosto de 2005 tomamos a decisão de nossas vidas: partir no início de 2007 para uma viagem de volta ao mundo de carro. Já fazia um bom tempo que o Roy não realizava nenhuma viagem, que eram de costume, anuais. Nosso namoro estava firme e forte, porém, precisávamos testar como nos comportaríamos juntos numa viagem mais longa. O Roy, então, me convidou para fazer uma expedição de carro pela Argentina, o Chile e a Bolívia.</p>
<p style="text-align: justify;">Equipamos nossa defender 110 com apenas o básico e necessário. Tiramos o banco traseiro para colocarmos um colchão que nos permitiria dormir dentro de nosso carro, levamos um fogão a gás, utensílios de cozinha, comida, computador, máquina fotográfica, um GPS antigo (sem mapa) que funcionava apenas para nos direcionar norte/sul e nos dar a altitude, 3 mapas impressos e as coisas pessoais de cada um.</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 17 de dezembro de 2005 partimos para o que é, hoje, um dos meus lugares preferidos do mundo: o famoso DESERTO DO ATACAMA.</p>
<p style="text-align: justify;">Tínhamos apenas 16 dias para ir e voltar, por isso teríamos que rodar em alguns dias grandes quilometragens. Para não perdermos tempo, fizemos um bom plano diário do que gostaríamos de conhecer x deslocamentos.</p>
<p style="text-align: justify;">Partimos cedo de São Bento do Sul em direção a Posadas, Argentina e cruzamos a fronteira internacional via Dionísio Cerqueira – SC. Dirigimos, dirigimos, dirigimos e só paramos num camping de um alemão a beira da Ruta Doce (12 em espanhol), próximo a região das missões. Foram 964km rodados nesse dia.</p>
<p style="text-align: justify;">De Posadas fomos a Salta e após cruzarmos o rio Paraná a paisagem foi dominada pelo chaco argentino. A estrada virou uma reta só, com muitos buracos. A vegetação era sempre a mesma e uniforme, o calor era intenso. Milhares de pombas voavam de um lado para o outro da rodovia e tínhamos que ficar atentos para evitar atropelamentos. Já borboletas, que voavam em maior quantidade, não tinha jeito de desviar. O que quebrava a monotonia da viagem eram as paradas policiais, quando os guardas tentavam arrancar nosso dinheirinho. Um deles foi tão cara-de-pau que até para pintar a guarita pediu dinheiro. No final da tarde surgiram as primeiras curvas e montanhas, indicando que ali iniciava a Cordilheira dos Andes. Chegamos tarde da noite em Salta, pegamos uma pousada no centro da cidade e saímos para jantar. O Roy já de cara pediu algo bem típico da região: vinho tinto misturado com água gaseificada bem gelados, que mataram a nossa cede quase insaciável. Voltamos para o hotel e desmaiamos de cansaço, pois nesse dia havíamos dirigido 1.209km.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro dia começou cedo novamente e iniciamos a subida da cordilheira. Haviam duas possibilidades para se chegar ao nosso próximo destino, a cidade de San Pedro de Atacama: pelo Paso Sico ou pelo Paso Jama. Como em sua viagem anterior ao Deserto do Atacama o Roy já havia cruzado o Paso Sico, optamos pelo caminho desconhecido de ambos, o Paso Jama. Subimos uma serra de estrada asfaltada, repleta de curvas e com uma vista surreal. Avistamos os primeiros salares e as primeiras lhamas e vicuñas. No meio da subida, fizemos uma parada para o almoço. Junto com nosso terceiro tripulante, o Pato Donald, preparamos aquela refeição. Continuamos a subir – ainda bem que nosso carro era turbinado, o que amenizava a perda de potência devido a pouca quantidade de oxigênio – e atingimos a altitude de 4.840m acima do nível do mar. Cruzamos a fronteira da Argentina para o Chile e a paisagem ficou mais impressionante ainda. Estávamos no meio do Deserto do Atacama! Lá longe avistamos o vulcão Lincancabur e empolgados paramos para tirar fotos, dignas de cartão postal e pinturas. Nessa hora percebemos que não foi só nosso carro que sofria com a falta de oxigênio, pois nós também sentimos os sintomas da altitude. O Roy se abaixou para tirar uma foto e quando levantou meio rápido, sentiu-se mal e ficou com uma forte dor de cabeça. Qualquer esforço maior não era bem aceito pelo nosso corpo. Chegamos em San Pedro e fomos direto para um camping comer e descansar.</p>
<p style="text-align: justify;">Noutro dia tivemos que ir a aduana chilena regularizar a entrada do carro no Chile. Todo o procedimento foi tranqüilo, porém, devido a grande rigidez chilena com a entrada de alimentos frescos no país, tivemos que abandonar nossas frutas, verduras e ovos. Pelo menos o leite, a manteiga e o bolo de natal que minha mãe mandou de presente nos deixaram ficar.</p>
<p style="text-align: justify;">San Pedro de Atacama fica no meio do Deserto do Atacama e possui ao seu redor muitos atrativos. Por isso atrai pessoas do mundo inteiro, que vão desbravar o deserto. A cidade é repleta de pousadas, restaurantes, agências de turismo e demais infra-estruturas necessárias aos viajantes.</p>
<p style="text-align: justify;">Trocamos dinheiro e o jeito, agora, era aproveitar. Fomos às agências de turismo coletar informações do que se tem para ver, fazer e como se chega a esses lugares de carro, sozinhos. Ao sair da última agência, dois franceses perguntaram se poderiam pegar uma carona conosco, já que gostariam de conhecer a Laguna Cejar e não tinham como chegar lá. Nos ofereceram o valor que pagariam a uma agência. Topamos! Com esse dinheiro, na tarde daquele dia, fizemos uma caminhada guiada pela Cordilheira de Sal, que finalizou com um pôr-do-sol no Vale de la Luna.</p>
<p style="text-align: justify;">A Laguna Cejar fica ao norte do Salar de Atacama. É uma lagoa de água cristalina esverdeada com uma alta concentração de sal. O Sol estava de rachar, mas a água, congelante. E eu pensei: “ vou mergulhar de uma vez!” e me joguei de ponta. Mas a alta concentração de sal fez meus olhos, boca e nariz arderem muito, logo no primeiro contato com a água. Foi o primeiro e último mergulho, pois o sal incomodava muito. O legal dessa lagoa é que nosso corpo malmente afundava, devido a grande densidade da água pela concentração do sal.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltamos para a pousada loucos por um banho de água doce. Nossa pele estava branca pelo sal e nossos cabelos duros como uma pedra. O Roy preparou o almoço (almôndegas enlatadas com miojo), mas quando nos demos conta do horário, saímos correndo e comendo no caminho para não perder o passeio da tarde que havíamos contratado.</p>
<p style="text-align: justify;">E que show foi esse passeio! A primeira parada foi no Vale de la Muerte (Vale da Morte). Não se sabe ao certo o porque desse nome, mas existem três hipóteses: uma delas e a mais provável conta que o fundador do museu, um padre, disse que o lugar parecia um vale de Marte e os índios acabaram entendendo erroneamente como muerte. Outra conta que ali eram enterrados os mortos e a terceira diz que viajantes e seus animais muitas vezes morriam tentando atravessar esse lugar. Aos nossos olhos, a hipótese que se pareceu mais provável foi a primeira, visto que tudo ali se parecia com um outro planeta, devido a aridez e formações no deserto. Dali, de carona com a van da agência, fomos ao ponto de partida da caminhada na Cordilheira de Sal, de onde descemos pelo vale até chegarmos num cânion com suas paredes cobertas de sal. Segundo nosso guia, essas montanhas salgadas se mantém intactas devido a aridez – chove cerca de cinco dias ao ano, somente em março, aproximadamente dez minutos por dia. E quando chove a água trás o sal para a superfície e forma-se um solo oco e frágil.</p>
<p style="text-align: justify;">A van nos esperava no final do cânion e nos levou, finalmente, para o famoso Vale de la Luna (Vale da Lua). Centenas de turistas já aguardavam o fim do dia para ver o pôr-do-sol naquele lugar paradisíaco. O sol ainda estava alto e tivemos que enfrentar uma subida forte para chegar ao mirante. Com a pressa que saímos da pousada, levamos apenas uma garrafa pequena de água para nós dois e essa já havia acabado fazia tempo. A sede pegou. Mas o visual compensou qualquer esforço. Ele justificava toda aquela gente estar ali. Avistávamos uma formação chamada de anfiteatro, uma duna gigantesca e o vulcão Lincancabur, com sua forma cônica perfeita. Como o ar é seco, é possível enxergar centenas de quilômetros. Por fim, vimos um belíssimo pôr-do-sol e voltamos a pequena San Pedro realizados com nosso dia perfeito.</p>
<p style="text-align: justify;">A noite de San Pedro é agitada. As construções de abobe são iluminadas com luzes de velas e o cheiro da comida espalha-se pelo local. A música andina, vozes, risadas em diversos idiomas vem de todas as esquinas. A atmosfera é encantadora, mas típica de um lugar realmente turístico. E os preços também! Jantamos uma deliciosa comida no Café Étnico e é claro que depois de um dia desses, uma cerveja gelada não poderia faltar.</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 21/12 acordamos antes do sol nascer, as 3h40, com o intuito de ver o amanhecer nos Geisers del Tatio. É no clarear do dia que o espetáculo é mais bonito, no contraste da água fervente que sai dos gêiseres com o frio da manhã. Pegamos uma estrada ruim de aproximadamente 80km com muita pedra solta, tornando o deslocamento lento, mas mesmo assim fomos um dos primeiros a chegar no local. O frio era intenso, certamente que os termômetros marcavam graus negativos. O sol nasceu por detrás da fumaça de vapor, enquanto isso, alguns gêiseres apenas borbulhavam, outros, vez ou outra, esguichavam a água a toda pressão atingindo alguns metros de altura.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano para esse dia era conhecer, além dos gêiseres, pueblos (vilarejos) da região. Como de costume no Deserto do Atacama, o céu estava azul, sem nenhuma nuvem. Aos poucos fomos guardando os cobertores e tirando nossas roupas de frio. Pegamos uma serrinha chamada Quebrada Chita e seguimos rumo a Caspaña. No caminho víamos pilhas de pedras bem altas, comuns aqui na região, mas só fomos descobrir o porque da sua existência um bom tempo depois. São chamadas apachetas. Os viajantes as montavam para demarcar as rotas. Geralmente eram feitas em formato piramidal e ocas no meio para guardar coca, alimentos (comumente carne seca de vicuña) e água.</p>
<p style="text-align: justify;">De repente, no meio daquela planície monocromática surge um buraco, como uma erosão, e ali dentro instalava-se o vilarejo Caspaña. Apenas um pequeno riacho cruza o pueblo e a pouca água que nele corre é o suficiente para trazer verde e vida àquele lugar. As casas são simples, de barro ou pedra, com telhados de palha e jardins e hortas impecáveis. As plantações são feitas em terraços, que ajudam na sua irrigação. Caspaña parece um vilarejo de estória encantada.</p>
<p style="text-align: justify;">Adiante vimos a Laguna Chiu-Chiu de profundidade não identificada. O francês Jacque Cousteau veio estudar a sua profundidade, pois o povo local dizia que de tão profunda, a lagoa possuía ligação com o mar. Ela também é chamada de Laguna Inca Coya devido a uma trágica lenda inca que conta o seguinte: <i>“Colque-Coillur era a mais bonita das princesas incas e sua doçura e beleza conquistaram o inca Atahualpa Yupanqui, que havia chegado as belas terras chiuchiuanas. Uma promessa de seu amado iludiu a jovem e eles conceberam um filho. Porém a princesa foi traída e ela acabou suicidando-se no lago com o pequeno em seu ventre.”</i></p>
<p style="text-align: justify;">Dali, entramos em mais um vale verde, repleto de lhamas peludas e fofas. Estávamos entrando no Vale do Rio Lòa. Essa localidade é famosa pelas inscrições rupestres de 3.000a.C que ficaram intactas até a chegada dos espanhóis. Fomos procurando os ditos petroglifos, mas nada de diferente víamos naquelas pedras que delimitavam o vale. De tanto querer vê-los, estávamos vendo coisas que nem existiam. Chegamos a vila de Lasana, que possui ruínas de um forte de aproximadamente 400d.C e decidimos voltar. E aí sim, olhando para as pedras por um outro ângulo, encontramos diversos petroglifos e as nossas caras tristes mudaram. Seguimos para Chiu-Chiu e visitamos uma das igrejas mais antigas do Chile com detalhes de madeira de cactos. Essa madeira é tão bonita que acabamos coletando uns pedaços e trouxemos para presentear o pai do Roy.</p>
<p style="text-align: justify;">Continuamos pelo deserto, calor e poeira, e chegamos em Calama, a cidade que hospeda uma das maiores minas de cobre do mundo. Por pouco não batemos nosso carro com um ônibus. Morrendo de fome, paramos em uma feirinha no centro da cidade e comemos um sanduíche de bife, tomate e cebola. De Calama regressamos a San Pedro de Atacama. Aproveitamos o resto do dia para passear nas feirinhas e fazer faxina no carro, o qual estava uma bagunça. Mais um dia terminou, dessa vez com uma taça de vinho.</p>
<p style="text-align: justify;">Sexto dia de viagem deixamos San Pedro e o Chile para entrar na Bolívia. Na fronteira cruzamos com diversos brasileiros, fizemos os trâmites (apenas de imigração já que a aduana ficava num posto avançado) e partimos rumo a uma grande aventura. O plano era cruzar o deserto até o Salar de Uyuni numa rota chamada Circuito das Jóias Altoandinas. Não tínhamos mapa no GPS para nos guiar e muito menos sabíamos o caminho. As informações que tivemos era de que alguns carros de agências de turismo faziam esse trajeto levando turistas e que poderíamos segui-los. Foi nossa idéia&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Nos primeiros quilômetros dentro do novo país está a linda Laguna Blanca (Lagoa Branca) de água cristalina, que reflete as montanhas de fundo. Sua coloração é branca e milhares de flamingos faziam a sua morada ali e embelezavam ainda mais o cenário. Uns mais brancos, outros mais rosados faziam pose para a nossa câmera. Alguns quilômetros a frente chegamos a Laguna Verde (Lagoa Verde). Assim como as águas da Lagoa Branca são brancas, as da Laguna Verde são verdes! Sentamos e ficamos observando aquela beleza singular. De repente, a superfície lisa da água que até então refletia o Vulcão Lincancabur começou a ficar ondulada devido ao vento que passou a soprar e a lagoa se transformou num verde opaco intenso. Um fenômeno interessante! O vento surge do nada e dizem que isso acontece diariamente no mesmo horário.</p>
<p style="text-align: justify;">Na viagem que se seguia, a cada curva uma nova surpresa, uma nova paisagem de tirar o fôlego. Paramos para ajudar o motoqueiro Miguel que já estava há quatro horas tentando fazer a sua moto funcionar. Ele estava sozinho no meio do deserto e nenhum carro que passava parava para lhe ajudar. O Roy identificou o problema quase que prontamente, pois acontecera ao Miguel o mesmo problema nas velas que ele tivera em sua viagem ao Ushuaia. Quando sua moto pegou, Miguel abriu um sorriso naquele rosto rosado, típico de um senhor andino e o deixamos com algumas barras de cereal e água.</p>
<p style="text-align: justify;">Saímos da trilha principal para ir a aduana regularizar a entrada de nosso carro na Bolívia. O curioso é a localização dessa aduana, que fica junto de uma estação produtora de ácido bórico sobre um vulcão. Está a 5.050m de altitude (maior altitude alcançada em nossas vidas até então!!!). Com informações dos agentes aduaneiros, ficamos sabendo que já havíamos passado dos Geisers Sol de Mañana. Mas como não era longe, voltamos e lá estavam eles, completamente diferentes dos Geisers del Tatio. Eram característicos pelo lodo acinzentado, alguns apenas soltavam pressão, outros borbulhavam tão alto que tínhamos que manter uma certa distância. A fumaça e o cheiro fedorento de enxofre eram muito fortes.</p>
<p style="text-align: justify;">Logo mais a frente, avistamos algo diferente, o que parecia uma miragem. Fotografamos para registrar e pelo que os mapas indicavam era a Laguna Colorada. Quanto mais nos aproximávamos, mais curiosos ficávamos. Haviam nuvens de fumaça, redemoinhos que levantavam a poeira do solo. Logo identificamos uma espécie de salar no meio do qual acumulava-se uma água vermelha onde haviam milhares de pequenos pontinhos rosados, que na verdade eram milhares de flamingos. Era sim a Laguna Colorada! Ficamos chocados com a beleza exótica do lugar. Não sabíamos o que fazer, nem o que pensar. Como pode existir uma beleza dessa?</p>
<p style="text-align: justify;">Os jipes com os quais havíamos cruzado pouco antes haviam desaparecido e não fazíamos a mínima idéia de que caminho seguir. Única informação é que eles iriam passar a noite num abrigo próximo a lagoa. Era impossível terem sumido assim e estávamos com receio de ficar procurando-os e assim gastar nosso precioso combustível. Resolvemos ir na direção da ponta da lagoa, subimos um morro e quando chegamos ao topo ficamos boquiabertos: avistamos a continuação da Laguna Colorada. Imensa! Aqueles flamingos, a cor branca e vermelha era uma visão muito louca.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguimos para um lugar que parecia ser os tais abrigos, mas o que representava perto, na verdade, eram vários quilômetros. Quando chegamos, uma mulher local nos confirmou que essas expedições passam a noite ali. O sol ainda estava alto (+/- 2h da tarde) então resolvemos voltar para a lagoa e curtir mais um pouco o visual. Logo encontramos um jipe e avistamos os demais chegando. Mais algumas fotos e decidimos seguir viagem. Como dormíamos em nosso carro, qualquer lugar nos serviria de acampamento.</p>
<p style="text-align: justify;">A trilha que existia transformou-se em vários caminhos no meio do deserto. Agora que os outros carros ficaram para trás, tínhamos que seguir sozinhos. O Roy estava empolgadíssimo com as estradas, que assim como as paisagens, mudavam a toda hora. Areia, pedras, cascalho&#8230; de tudo! Em uma bifurcação ficamos em dúvida para onde seguir: reto, ou pegar a direita. A única indicação era uma placa de concreto com um mapa desenhado, mas que estava em pedaços no chão e não estávamos com a mínima vontade de brincar de quebra-cabeça naquele momento. Escolhemos o caminho da direita – por sorte o caminho certo. Segundo um dos nossos mapas impressos, cruzaríamos com as Lagunas Altiplanicas, mas a estrada foi ficando cada vez pior. Outra referência era o Vulcão Ollague que também constava no mapa e todas as montanhas altas que passávamos, achávamos que era ele. Tínhamos três mapas, mas todos eram diferentes. Vimos uma montanha muito linda, cheia de neve. Pedi para o Roy estacionar para eu fotografar e ele disse: “vamos só passar essa curva”. Quando passamos a tal curva, nos deparamos com uma lagoa imensa, cheia de flamingos. Estavam ali as lagoas que tanto procurávamos e a cada vale que passávamos, surgia uma diferente. De tão lindas, parecia um sonho.</p>
<p style="text-align: justify;">Descemos uma estrada horrível e chegamos no que parecia uma estrada principal. Sem nenhuma indicação, seguimos para a direção mais provável, a esquerda. Depois de 34km, um trilho de trem cruzava a estrada e percebemos que estávamos no caminho errado. Ali era a divisa da Bolívia com o Chile. Já estava anoitecendo e nosso carro estava cheio de pó, por fora e por dentro, e nós dois cansados não víamos a hora de chegar a San Juan, tomar um banho e descansar. Voltamos até o local onde encontramos essa estrada maior e rodamos 14km na outra direção até encontrarmos uns containers-casa e pedimos informação. Um homem nos falou que passamos da entrada a uns 20km atrás. Voltamos e depois de muitos quilômetros rodados a toa achamos o que parecia ser uma entrada para uma pequena trilha. O Roy achou melhor pararmos e dormirmos ali mesmo para confirmarmos se estávamos certos a luz do dia. Estávamos famintos, mas com toda aquela poeira dentro do carro não dava vontade de mexer um dedo para arrumar a cama e cozinhar. Por mim, dormiria sentada no banco mesmo. Pegamos um vidro de palmito e uma lata de milho e essa foi a nossa janta. Arrumamos a cama e capotamos.</p>
<p style="text-align: justify;">Levantamos com o sol alto e descobrimos que dormimos praticamente ao lado do Vulcão Ollague. Seguimos viagem e vieram as confirmações de que estávamos no caminho certo. Encontramos com carros de agências de turismo vindo do Salar de Uyuni e num deles haviam brasileiros que nos falaram: “O salar é de ELITE”. Cruzamos Chiguana, uma base militar boliviana e avistamos a cidade de San Juan. Nesse trajeto, uma luz no painel do carro se ascendeu indicando algum problema na caixa de câmbio. Não estávamos num bom lugar para ter problemas mecânicos. Preocupados, seguimos viagem e logo a luz se apagou. Fomos cruzando diversos pueblos, passamos da entrada de Uyuni, voltamos, perguntamos e finalmente achamos a entrada para a imensidão do Salar de Uyuni.</p>
<p style="text-align: justify;">A direção a ser seguida seria a Isla del Pescado, uma das diversas ilhas que brotam daquela planície branca do salar, mas em que direção estaria ela? Naquele mar de sal, de quase 300km de diâmetro, como acharíamos uma simples ilha se não tínhamos um GPS? O Roy tinha uma suposição da direção, já que esteve lá em outra oportunidade, porém, vindo da direção oposta. E falou com convicção: &#8211; Temos que ir para lá!&#8230;  que referência ele usou eu não sei, mas confiei na sua intuição. Havia alguns centímetros de água que espelhavam o céu o que multiplicava ainda mais a sensação de amplitude. Logo nos primeiros quilômetros nosso Land ficou coberto de sal. Tínhamos que seguir devagar, pois podíamos cair num buraco – o sal é como a areia, acaba camuflando as bordas do solo e muitas vezes morros e buracos passam despercebidos a nossos olhos.</p>
<p style="text-align: justify;">E não é que a direção estava certa? Depois de mais de 1h30, chegamos a famosa ilha. Pelo que parecia, foi um vulcão no passado, pois seu solo estava coberto por rochas similares a vulcânicas. Os cactos dominavam quase todo o seu território. Alguns com mais de 1230 anos. Para saber a idade de um cactos basta medir a sua altura. Este milenário possuía 12,30 metros – cada centímetro de altura representa um ano de vida. Subimos até a parte mais alta da ilha, de onde podíamos ter uma vista de 360 graus do maior deserto de sal do mundo. Segundo os bolivianos, o Salar de Uyuni possui 12.000 quilômetros quadrados e em alguns lugares a profundidade de sal pode chegar a 100m.</p>
<p style="text-align: justify;">Estávamos morrendo de fome e com preguiça de cozinhar, então resolvemos comer no restaurante que havia na ilha. Comemos carne de lhama, com salada, batata frita e dois molhos muito saborosos de pimenta e salsa. Demos carona para uma mulher chamada Victoria. Ela nos mostrou a direção para a cidadezinha de Llica (para onde seguiríamos no próximo dia) e posteriormente nos deu referências de uma lavação, uma casa de câmbio e um hotel barato para ficarmos em Uyuni. Ficamos até tarde na lavação, tirando o quanto antes o sal do carro e aproveitamos para fazer uma limpeza na poeira que se acumulava em seu interior.</p>
<p style="text-align: justify;">No outro dia cedo, dia de natal, fomos procurar uma oficina para checar o que estava acontecendo com nosso carro. Descobrimos mais tarde que o sensor do óleo da caixa estava “pirando”. Seguimos viagem e fizemos mais quilômetros sobre o sal (acho que no total foram 300km somente no salar de Uyuni). Llica foi o primeiro de muitos povoados que passamos até o Salar de Capasa. Esse salar também era muito bonito e tivemos a sorte de encontrar alguns flamingos no meio de sua brancura. Por essas regiões menos turísticas éramos praticamente os únicos circulando e muitas vezes tínhamos que adivinhar que caminho seguir. Chegamos a Psiga, fronteira da Bolívia com o Chile. Abastecemos, lavamos mais uma vez o carro e logo estávamos em Colchane – Chile. Ali, ficamos “P” da vida, pois os agentes da aduana nos fizeram tirar tudo de nosso carro para fazerem vistoria e quando falamos que seguíamos para Putre, falaram que não era indicado cruzar o caminho que passava pelas montanhas. As vezes, se estamos em busca de aventura, temos que ignorar esses palpites! Nós seguimos por esse caminho e foi ali que pegamos a primeira chuva da viagem, que veio para aliviar um pouco o calor e a poeira que estavam insuportáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Entramos no Parque Nacional do Vulcão Isluga com 5.530m de altitude. No pueblo Isluga não havia ninguém, mas no pueblo Enquelga, que também estava desértico, encontramos um casal, que pode dar-nos informações. Não haviam hotéis ou campings, mas fomos gentilmente convidados a usar uma casinha desocupada. No meio dos entulhos havia uma mesa, onde poderíamos cozinhar. Decidimos aceitar o convite! Não haviam chuveiros, só um banheiro comunitário no meio da vila. Quando fui usá-lo, vi que a senhora estava limpando-o para nós e logo o senhor nos trouxe uma toalha para colocarmos na mesa. Estávamos sendo muito bem recebidos.</p>
<p style="text-align: justify;">Arrumamos a cama no jipe e fomos para dentro do pequeno abrigo cozinhar, pois estávamos mais uma vez apenas com o café da manhã e algumas barras de cereal. A chuva trouxe o frio! Primeiro fizemos um café para nos esquentar e depois, a nossa ceia natalina: pepino em conserva, macarrão ao molho de atum, extrato de tomate e ervilhas. Tudo isso regado a muito nescau com vodca natasha – tudo para nos aquecermos. Oferecemos aos nossos hospedeiros um pouco de pepino e um pedaço de bolo de natal. Ambos recusaram. Acredito que estavam com receio de experimentar algo desconhecido. E veio a hora dos presentes. Eu ganhei uma bolsa da Bolívia e o Roy um pedaço de madeira de cactos, rsrsrs. Abri também um presente enviado pela minha irmã Daniela e aí, quando li o cartão, não deu para agüentar a emoção. Era meu primeiro natal longe de casa e da família.</p>
<p style="text-align: justify;">Louça limpa e fomos dormir, mesmo que ainda estava claro. O Roy teve uma crise de sonambulismo e bateu seu olho em algum lugar no carro. Estava assustado e sentia muita dor. Quando fui buscar um pouco de água para ele, numa torneira fora do carro, percebi o quão congelante estava o ar. Nosso natal de 2005 foi ali, naquele povoado simples, ao redor de casas de barro e aos pés do vulcão Isluga. São momentos inesquecíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Levantamos cedo noutro dia, tomamos café, arrumamos nossas coisas, tiramos uma foto com nossos hospedeiros e partimos. Seguimos por vales verdes entre as montanhas, vales com rios cristalinos, habitados apenas por lhamas. Logo apareceram as primeiras montanhas com neve em seu cume – provavelmente havia nevado na última noite. Chegamos a cerca de 4.750m acima do nível do mar e o frio ficava cada vez mais intenso. Quando chegamos no Parque Nacional das Vicuñas, entramos no Salar de Surire e fomos em direção a termas, onde encontramos um casal de franceses. Tanto eles quanto nós estávamos receosos de entrar nas águas termais, pois não sabíamos se era indicado para banho. O cheiro de enxofre era altíssimo e a cor da água comprovava que nela havia uma grande concentração dele. O Roy se arriscou primeiro e logo foi seguido por todos nós. A água estava muito quente e foi perfeita para relaxar.</p>
<p style="text-align: justify;">Do outro lado do salar avistamos o Vulcão Guallatiri (6.071m), cuja base ficava a cidade Guallatiri. Ele estava coberto de neve e muito lindo. Dali para frente haviam muitas montanhas cobertas de neve. A chuva nos acompanhava&#8230; Comentei com o Roy que nunca tinha visto nevar. De repente chegamos num topo de um morro e nos deparamos com uma área plana muito branca. Ficamos em dúvida se era neve ou sal e ficamos em silêncio. Mas logo confirmamos que era neve, pois flocos caiam do céu. Que alegria!!!  No dia 25 de dezembro, natal, nevando. Saímos do carro de roupas curtas e chinelo – definitivamente não estávamos esperando pegar neve. Fizemos muitas brincadeiras e fotos, mas tivemos que seguir viagem.</p>
<p style="text-align: justify;">O plano agora era descer a cordilheira até Arica. Foram horas para ir de 4.200m de altitude até o nível do mar. O trajeto passava por uma serra gigantesca que ia de montanha em montanha. Dela saiam serras menores que davam acesso as cidades situadas nos vales – provavelmente por causa dos rios. Chegamos em Arica para o almoço e como era cedo, decidimos seguir até Cuya. Foi novamente um sobe e desce interminável. Vilas e cidades nos vales verdes e deserto plano nas partes altas, impressionante. De Cuya fomos ainda até Iquique, onde passamos a noite.</p>
<p style="text-align: justify;">26/12, acordamos não muito cedo e saímos para organizar algumas coisas. Primeiro fomos em busca de uma oficina mecânica e depois fomos fazer ligações e mandar e-mails para casa. Aproveitamos o começo da tarde para passear no centro e nas feirinhas de Iquique. De volta a nossa Land, dirigimos para a praia e fomos molhar nossos pés nas águas congelantes do Pacífico para então seguir a Tocopilla.</p>
<p style="text-align: justify;">A paisagem litorânea é alucinante. No Brasil temos o mar, seguido de uma grande planície, da qual nasce a serra do mar. No Pacífico, a cordilheira dos Andes brota praticamente onde batem as ondas! O Roy comentou que na primeira vez que passou por aqui, dirigiu somente por estradas de chão. Agora tudo já estava asfaltado. Depois de um pôr-do-sol incrível sobre as águas do Oceano Pacífico, chegamos ao nosso destino.</p>
<p style="text-align: justify;">Por não termos encontrado camping, pegamos um hotel. Era bem simples, onde hospedavam-se muitos trabalhadores das minas. Jantamos no hotel mesmo e aproveitamos para abrir um vinho. Estávamos tomando em copos normais de bebida, mas quando a dona do restaurante viu aquilo, foi correndo buscar taças de vinho. A verdade é que as taças dela não tinham nada haver com as nossas e sim com taças de sobremesa. Caímos na gargalhada&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">De Tocopilla fomos para Antofagasta e no caminho paramos para apreciar o Monumento Natural La Portada &#8211; um pórtico esculpido pelo vendo e água do Oceano Pacífico. Almoçamos ali mesmo, o que nos deu mais tempo para curtir a beleza daquela praia. Antofagasta é a maior cidade que cruzamos, industrial, onde tudo girava em torno das minas. A maioria dos carros eram caminhonetes de mineiros.</p>
<p style="text-align: justify;">Subimos a serra e em La Negra enchemos o tanque no que seria o último posto de combustível dos próximos 450km. Nosso caminho era sentido Mina Escondida (mina de cobre) e depois rumar sentido a Argentina pelo Paso Socompa. Nós tínhamos dois mapas que não batiam entre eles: um dizia para pegarmos a direita antes de cruzar o trilho do trem e o outro, depois do trilho. Passamos por um pequeno salar e quando chegamos em uma casa abandonada nos ligamos que era uma estação de trem e que estávamos no caminho errado. Já tínhamos cruzado os trilhos e não havíamos visto nenhuma estradinha para a direita. Voltamos e nisso começou a anoitecer, quando fomos presenteados com um maravilhoso pôr-do-sol. Chegamos no local onde cruzamos os trilhos e achamos uma estrada quase paralela a principal. Comemoramos, pois pelo que tudo indicava era a estrada correta a seguir. Andamos no meio do deserto, na escuridão, mas não havia sinal de vida. Descemos uma serra e saímos num vale entre as montanhas. Queríamos confirmar se estávamos certos, por isso seguimos mais um pouco, mas quanto mais andávamos, mais nosso combustível corria risco de faltar, caso não estivéssemos certos. A estradinha foi ficando mais difícil e terminou num vale sem saída. Então dissemos: &#8211; Agora chega. Vamos passar a noite aqui e amanhã resolvemos esse impasse. Verdade, isso é uma coisa que um viajante tem que aprender. É preciso viajar de dia, pois a noite, além de não se poder admirar a natureza, os perigos aumentam. A noite foi congelante, pois estávamos acima dos 4.000m de altitude.</p>
<p style="text-align: justify;">Dia 28 acordamos cedo e fomos em busca do caminho certo. A alguns metros a frente achamos a continuação da serrinha, que subia e cruzava diversas montanhas, mas depois de algum tempo encontramos uma casa abandonada e decidimos voltar. Já estávamos bem receosos. Chegando na principal, voltamos mais uma vez no cruzamento do trilho de trem e resolvemos fazer mais uma tentativa numa outra estrada que saía a direita mais perto do salar. Subimos umas montanhas e de repente achamos uma estrada maior, com os trilhos do trem novamente e placas indicando SOCOMPA. Até que enfim achamos o caminho. Apesar do alívio, tínhamos uma preocupação &#8211; com tanta quilometragem de perdidas (+/- 100km), será que ainda teríamos combustível suficiente para chegar ao próximo posto? Estávamos sempre sós, nós e o deserto. Era perto do meio-dia quando chegamos na fronteira.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando planejávamos fazer essa viagem, o Roy comentou com seu primo Roni – o qual também planejava fazer uma viagem no Atacama e na mesma época que nós – que queríamos cruzar o remoto Paso Socompa. Ouvimos falar que ali passou uma das provas do famoso Camel Trophy. Em sua viagem, o Roni decidiu passar por esse mesmo local e o engraçado foi que quando assinou no livro da imigração para entrar na Argentina, três dias depois que nós havíamos passado, assinou embaixo dos nossos nomes. Isso significava que em três dias não havia passado ninguém por aquelas bandas. Quando o Roni comentou isso com os guardas, que a pessoa que havia assinado antes era seu primo, eles custaram a acreditar.</p>
<p style="text-align: justify;">Tranqüilos por termos encontrado o caminho certo, paramos para preparar um merecido almoço, pois aquele dia nem tínhamos tomado café da manhã e logo pegamos estrada novamente. Queríamos encontrar mais descidas do que subidas, para economizar combustível, mas não parávamos de subir. Costeávamos montanhas gigantes e o trilho do Trem de las Nuebles sempre nos acompanhava. Chegamos a um belíssimo salar que avistamos do alto e pelo que parecia no mapa este era o maior salar argentino. Levamos muito tempo cruzando-o até chegarmos numa pequena cidade rodeada por lindas montanhas com picos nevados.</p>
<p style="text-align: justify;">Adiante, chegamos numa região de paisagem diferente, com montanhas de altura moderada e muito avermelhadas. Segundo o Roy, parecia com a região de Cafayate, próxima de Salta. Em Pocitos teríamos que regularizar nosso carro na aduana argentina, mas devido as festas estavam fechados, o que nos fez seguir ilegais no país. A estrada melhorou e finalmente chegamos no cruzamento da estrada do Paso Sico. O Roy reconheceu o lugar que passou em sua viagem solo de moto. A paisagem começou a ficar mais colorida. As montanhas altas, cobertas de neve estavam rodeadas por pesadas nuvens e tudo indicava que estava nevando nos cumes. Veio Santo Antonio de los Cobres e um posto de combustível. UFA! Voltamos 20km para ver o viaduto do famoso Trem de las Nuebles – o viaduto de maior altitude acima do nível do mar. Ele era muito alto e bonito, mas começou a chover e esfriar, então corremos para o carro. Flocos de neve estavam pairando no ar. Já estava escurecendo e seguimos viagem para Salta descendo por uma serra muito bonita e asfaltada. A noite caiu e Salta não chegava. De repente o asfalto acabou e voltou estrada de chão. Pegamos uma serrinha muito lenta e o pouco que víamos na escuridão, eram enormes buracos e precipícios ao nosso lado. Foram 50km intermináveis. Finalmente lá longe avistamos as luzes de Salta.</p>
<p style="text-align: justify;">29/12 cruzamos novamente o chaco, com suas retas intermináveis e calor insuportável. O entardecer nessa região foi muito interessante. Milhares de cigarras cantavam juntas um estridente canto. Chegava a doer o ouvido. E já era tarde da noite quando um guarda – divisa de estados – nos parou e começou a fazer diversas perguntas. Ele queria propina, é claro. Pediu para mostrarmos o kit de primeiros socorros, os dois triângulos, o extintor e o cambão. Não tínhamos dois dos itens (kit de primeiros socorros e cambão) e ele queria nos multar. Chamou o Roy para dentro da guarita e depois de muita discussão acabamos pagando vinte pesos argentinos. Fomos embora inconformados. Chegando em San Roque Sáenz Pena estávamos caindo de sono. Eu, na verdade já estava dormindo faz tempo. Paramos num posto de combustível e estacionamos junto com os caminhoneiros para passar aquela noite, quente e infestada de mosquitos.</p>
<p style="text-align: justify;">O Roy, quase sem conseguir dormir, levantou as 6h da manhã e seguiu viagem, comigo dormindo atrás, por uns 70km. Este dia foi um dos dias mais chatos e apenas de deslocamento, sem nada de interessante no caminho. O calor estava mais que insuportável. Passamos por Posadas e tocamos direto até Foz do Iguaçu. Na fronteira, estávamos receosos que iriam implicar que não demos entrada do carro na aduana argentina. Mas ninguém questionou nada em Puerto Iguazu e chegamos a Foz. Demos a sorte de conhecer um guia muito bacana que nos ajudou a encontrar um hotel.</p>
<p style="text-align: justify;">Passamos a manhã do último dia do ano de 2005 fazendo algumas comprinhas no Paraguai. O Roy trocou os quatro pneus do carro por um preço super em conta. Infelizmente, devido a data, as lojas fechavam as 13h e voltamos cedo para o Brasil. A tarde aproveitamos para relaxar no hotel e nos preparar para a virada do ano.</p>
<p style="text-align: justify;">Não tínhamos o que fazer na virada. A maioria das festas eram fechadas em clubes ou hotéis e custavam uma fortuna. Apenas alguns barzinhos estavam abertos e foi num desses mesmo que decidimos jantar. As 23h45 fomos para a calçada a espera de ver um show de fogos, mas que nada, pouca coisa aconteceu. O jeito foi voltar para o hotel e descansar para o último dia de viagem.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 01/01/2006 saímos depois das 10h de Foz do Iguaçu, ansiosos para chegar em casa. O dia custou a passar e já estávamos agoniados e impacientes dentro do carro. Nossa chegada em São Bento do Sul foi debaixo de chuva as 19h, totalizando 8.742km rodados! Estávamos felizes por chegar em casa. A viagem fora maravilhosa, mas puxada, com dias cheios e longas quilometragens. Mas a melhor parte de chegar em casa não foi o descanso, mas sim que iríamos iniciar os planos para a nossa viagem de volta ao mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">por Michelle Francine Weiss</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>2003: Transamazônica em 3 Falcons 400 [Roy Rudnick, Carlos Liebl e James Pfützenreuter]</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 02:59:26 +0000</pubDate>
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		<title>2001-2002: Paraguai, Bolívia e Peru de S10 [Roy Rudnick, Sandro Becker e Juraci Claudio Rossetto]</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 02:58:25 +0000</pubDate>
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		<title>2000-2001: Deserto do Atacama de Honda CB 500 [Roy Rudnick]</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 02:57:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É interessante a forma que os nossos sonhos surgem: quando eu voltava de Ushuaia (jan/2000), minha primeira grande viagem de moto, por ter tido muito tempo a sós com meu capacete enquanto percorria aquelas intermináveis retas da Argentina, já sonhava com o que poderia fazer nas próximas férias. Eu sonhava e ao mesmo tempo planejava [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">É interessante a forma que os nossos sonhos surgem: quando eu voltava de Ushuaia (jan/2000), minha primeira grande viagem de moto, por ter tido muito tempo a sós com meu capacete enquanto percorria aquelas intermináveis retas da Argentina, já sonhava com o que poderia fazer nas próximas férias. Eu sonhava e ao mesmo tempo planejava cruzar o árido Deserto do Atacama no altiplano Argentino, Chileno e Boliviano.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso foi uma coisa legal. Durante aquele ano de trabalho e estudos, eu tinha um sonho, eu tinha um plano. Era o que me mantinha!!! Talvez os sonhos sejam feitos para isso, para dar-nos motivação no trabalho e nos estudos em prol de algum objetivo. No meu caso, ATACAMA.</p>
<p style="text-align: justify;">Parti em dezembro de 2000 em uma Honda CB 500, subi a Cordilheira dos Andes via Paso Sico e segui até o Pacífico, dedicando um bom tempo à cidade e entorno de San Pedro de Atacama, uma das principais cidades desse deserto. No Pacífico, em Iquique, comemorei o ano novo e desci até Santiago, de onde retornei ao Brasil passando pelos Caracoles, Córdoba e Foz do Iguaçu.</p>
<p style="text-align: justify;">No livro Mundo por Terra &#8211; Uma fascinante volta ao mundo de carro, cito um acontecido desta viagem, o qual segue abaixo:</p>
<p style="text-align: justify;"><em>&#8220;Descemos a Cordilheira dos Andes pela Ruta 24, depois de passar ao lado da maior mina de cobre no mundo, a Chuquicamata. A estrada tem cerca de 100 quilômetros e desce 3.000 metros. Fizemos a conta e encontramos apenas quatro curvas, cada uma com menos de 20 graus à direita ou à esquerda. Chegamos ao nível do Oceano Pacífico e lá, como Pizarro, molhamos nossos pés. Tempos depois iríamos cruzar aquela imensidão de água, rumo a Oceania. Novas aventuras nos aguardavam do outro lado. E que aventuras!</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Essa descida de 3.000 metros em apenas quatro curvas é muito interessante, porém um pouco traiçoeira, pois te leva a querer fazer a melhor média de consumo de combustível da sua vida. Aconteceu isso comigo, só que há alguns anos. Viajava sozinho com uma Honda CB 500 e sobre o seu tanque de gasolina carregava uma bolsa preta fixada somente por velcro, onde estavam minhas roupas, planilha de viagem, máquina fotográfica, filmes já batidos, etc. Mas na descida, como vinha pilotando sem pressa alguma, deixei a moto rodar na banguela até começar a parte plana. Foram praticamente 100 quilômetros quase sem gastar combustível. Por isso, decidi que quando estivesse na parte da estrada que costeia o Pacífico, iria rodar até acabar o combustível do tanque principal. Queria ver qual seria meu recorde de autonomia com aquela moto. Eu me dava esse luxo de secar todo o combustível da moto porque carregava atrás das minhas costas um tanque de plástico com mais cinco litros de gasolina, os quais eu utilizaria para chegar à próxima cidade.</em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Dito e feito: a moto parou e eu estava feliz da vida que tinha feito aquela autonomia absurda. Sem descer da moto, tirei a famosa bolsa preta fixada sobre o tanque para que pudesse abrir sua tampa e abastecer. Coloquei-a para trás, em cima de um bauleto de plástico, com chave, onde carregava meus documentos e dinheiro. Em seguida, peguei o galão com os cinco litros, ainda sem descer da moto, e abasteci o tanque principal. Guardei o galão atrás das minhas costas, fechei a tampa do tanque e arranquei a moto a toda velocidade no sentido de Iquique, cidade que estava por vir. Só depois de dez quilômetros percorridos fui perceber que a mala havia caído de cima do bauleto há muito tempo. Até voltei para buscá-la, mas cheguei tarde demais: alguém já havia levado. Que burrice! Perdi tudo o que estava lá dentro. Tudo! O que me custou para perdoar foi a perda das fotos que tirei quando acampei no meio dos Géiseres del Tatio, a 4.300 metros de altitude, com temperatura próxima dos 10 graus negativos. Perdi aquela foto das cinco da manhã, quando minha moto e barraca, completamente brancas de gelo, contrastavam com o vapor dos gêiseres que subiam naquele céu azul.&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;">Vejam fotos dessa viagem&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Grande abraço,</p>
<p style="text-align: justify;">Roy</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>1999-2000: Ushuaia &#8211; A rota do fim do mundo [Roy Rudnick]</title>
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		<pubDate>Tue, 31 May 2011 02:56:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[UMA VIAGEM AO FIM DO MUNDO Os sonhos de se fazer uma viagem ao fim do mundo, ou seja, atingir o extremo sul por vias terrestres já vinham de muito tempo, porém não importava qual seria o meio de locomoção. Os comentários com amigos aventureiros colocavam esperança de que um dia poderia se tornar realidade [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>UMA VIAGEM AO FIM DO MUNDO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Os sonhos de se fazer uma viagem ao fim do mundo, ou seja, atingir o extremo sul por vias terrestres já vinham de muito tempo, porém não importava qual seria o meio de locomoção. Os comentários com amigos aventureiros colocavam esperança de que um dia poderia se tornar realidade a tão falada viagem ao fim do mundo. Alguns amigos tinham mesmo vontade de participar e chegamos a marcar local, data e até horário previsto para nossa partida, (25/12/1999 às 06:00h, em frente ao antigo restaurante A TOCA, o qual não foi cumprido).</p>
<p style="text-align: justify;">Na medida que foram se passando os dias, semanas e meses, alguns imprevistos fizeram com que meus companheiros desistissem da viagem. Foi, com certeza algo que me deixou muito sentido, porém não desanimei, e com muita iniciativa e vontade deixei o meu sonho de lado e parti para os planos, que com certeza, teriam que ser minuciosos. Através de um consórcio comprei uma moto Super Teneré 95, a qual já estava certo que seria a minha companheira, mas como essa compra que foi praticamente sete meses antes da partida, foi possível que eu fizesse várias outras viagens para me adaptar a ela. Já me preocupando também com a programação da viagem, comecei a pesquisar o local pela Internet, mas a quantidade de informações por este meio não foi o suficiente. Escrevi para algumas pessoas que já tinham feito o trajeto, mas também foi complicado, pois foi difícil até de formular as perguntas que deveria fazer, pois a minha viagem seria um pouco diferente por estar indo completamente sozinho. Consegui então falar com o Iguaçu Paraná, antigo conhecido das jipadas de antigamente, e isto foi com certeza uma mão na roda, pois ele tinha experiência de nada menos que seis viagens à Patagônia.</p>
<p style="text-align: justify;">Fizemos uma planilha completa de todo o trajeto que eu faria, com referências de kms, postos de combustíveis, camping, pousadas, incluindo os locais que jamais poderia deixar de visitar. Sem dúvida nenhuma, esta foi à ferramenta mais importante de navegação que eu tinha. Enfim, os preparativos foram se concluindo e o grande dia estava por apenas uma noite.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda no dia 17/12/99, trabalhei normalmente até umas 17:00h, e quando fui para casa ainda tive que fazer um trabalho de Espanhol. Após isto, finalmente, com a ajuda de minha mãe, minha irmã e seu namorado, que ajeitei os apetrechos para levar junto comigo, tais como: roupa, máquina fotográfica, comida enlatada para possíveis emergências, barraca, saco de dormir, GPS, ferramentas para a moto, incluindo câmara dianteira e traseira, velas, diafragma da bomba de combustível, Spray para pneu, e outros. Foi um tanto quanto demorado, mas no fim deu tudo certo. Ainda anotei a quilometragem da moto, que estava em 31.411,90 Km.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda nem o sol do dia mais esperado do ano (18/12) tinha aparecido, eu já me despedia de minha família e me punha em direção sul através da BR 280 (parecia um piá, de faceiro). Eram apenas 6:40h e sabia que aquele dia iria ser praticamente em cima de minha moto. O sol foi de rachar, e o protetor solar, quando comprei já não me adiantou muito, pois naquelas alturas, já estava vermelho igual a um camarão. Com certeza um erro de trajeto já era esperado, porém não no primeiro dia, mas aqueles 80km nas proximidades de Francisco de Assis não representaram muito nos 1.144,70 km percorridos até a cidade de Santana de Livramento. Sem contar do pacote de erva que ganhei do frentista de um posto de combustível em RS que estourou e esverdeou toda a minha bagagem&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Em Santana de Livramento, cidade muito interessante por fazer divisa com Rivera-Uruguai e ser separada por uma praça e um fuso horário, fazia muito calor. Calor tamanho, que me fez jogar água no lençol para que pudesse dormir. Mesmo assim não adiantou.</p>
<p style="text-align: justify;">Amanheceu o dia 19/12, cruzei a famosa praça e entrei no Uruguai, rumo à cidade de Paysandu. Faltando uns 20 km apenas para chegar lá, fiquei sem gasolina. “Agora deu pra cabeça”, pensei. Comecei a empurrar aqueles duzentos e poucos quilos e, de repente, parou uma Harley-Davidson 1989, pilotada por um americano chamado Tim Riley, que já há 10 anos está morando no Uruguai. Foi uma sorte tremenda, pois ele me deu 2 litros de gasolina e com esses consegui chegar ao próximo posto de combustível. Quando abasteci, me assustei com o preço do litro, pois era quase o dobro do preço do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">Segui então rumo à divisa com a Argentina, onde não queriam me deixar passar, pois eu não havia pego carimbo na aduana de entrada no Uruguai. Estava clandestinamente naquele país. Já estavam bravos comigo de tanto eu chorar e queriam me aplicar uma multa; foi quando sem querer, por força do habito, eu o chamei de “amigo”. O guarda me olhou e me falou: &#8211; Ah! Vai embora, vai!</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o caminho ainda estava longo para aquele dia, pois meu destino era dormir em Santa Rosa. Passando de Buenos Aires, os caminhos começaram a ficar longos e cansativos, porém muito atraentes com os inúmeros marrecões, perdizes, codornas e outros pássaros do local. E também pelas carreatas de maquinário agrícola trabalhando nas colheitas. Em Santa Rosa cheguei quando já era noite, depois dos 1.197,40 km rodados.</p>
<p style="text-align: justify;">No terceiro dia (20/12), o meu destino era chegar em San Carlos de Bariloche, para o qual tive que rodar mais 970,40 kms. Neste percurso, antes de cruzar o Rio Colorado, que faz divisa com a Patagônia, eu cruzei o chamado “Cruce dos Desierto”, pela ruta 20. Era deserto e mais deserto. Mas quando entrei na Patagônia é que a coisa ficou boa, pois era a continuação deste deserto mais deserto. Esta paisagem nos faz pensar que, sempre por detraz do próximo morro teremos uma surpresa, porém continua a mesma coisa. Parece que voltamos à estaca zero. Apenas a uns 100 km antes de chegar em Bariloche, é que a coisa começou a mudar, e por estar chegando perto das cordilheiras, esta mudou completamente, pois até a neve começou a aparecer. Em Bariloche armei a primeira vez a minha barraca no Camping “La Selva Negra”, e quando saí para jantar, conheci um Americano louco chamado de Sterling Churgin. Ele estava com uma BMW 1100. A noite já estava bastante fria.</p>
<p style="text-align: justify;">Pelo motivo de que minha moto começou a falhar (estava bebendo demais), no dia seguinte (21/12) levei-a no mecânico Chiwi, que deixou-a zero bala. Este foi um dia que aproveitei para descansar, pois tinha que aguardar minha moto ficar pronta. E, nesse meio tempo, conhecendo a cidade a pé, levei até uma cantada de um barbado que ainda tinha a coragem de dizer que não era gay.</p>
<p style="text-align: justify;">Bariloche é uma cidade linda, rodeada de montanhas e com um grande lago em sua frente. Naquela tarde, quando minha moto ficou pronta, eu percorri o trajeto do “Chico”, que é um passeio muito bonito. Conheci também neste caminho o casal Eric e Gail Hawes, que já percorreu o mundo em cima de uma BMW 1000.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 22/12, quando fui abastecer a moto para seguir viagem, tive uma surpresa. O combustível baixou novamente e estava praticamente no mesmo preço do Brasil.</p>
<p style="text-align: justify;">E agora sim, estava indo para o Chile, cidade de Pucon. Mas ainda na saída, dois fatos interessantes aconteceram. O primeiro aconteceu com um canivete suíço que deixei sobre uma mesa no camping em que havia ficado. E não é que o dono do camping ligou para a polícia rodoviária para me avisar deste canivete, e que teria que voltar para pegá-lo? E o segundo fato, foi quando já estava bem adiantado na estrada, a mais ou menos uns 140 km/h, vi três guardas fazendo uma blitz no meio da estrada. Não deu tempo de reduzir e, no momento em que passei por eles, um tirou o boné e fez o gesto como se fosse com uma bandeira, dando a chegada de uma corrida. Só deu tempo de cumprimenta-los, e toquei embora.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse dia almocei em uma cidade muito bonita chamada San Martin de los Andes, e isto ainda antes de encarar os primeiros kms do famoso Ripio (estrada de chão com muitas pedras soltas, o que muitas vezes torna-a perigosa, especialmente para motos com pneu próprio para asfalto). De deserto eu já não via mais nada. Uma imagem impressionante que me acompanhou por grande parte da viagem foi o Vulcão Lanin, e também uma serra exuberante, onde passei por alguns caminhos alternativos, os quais não pareciam serem transitados freqüentemente. Na aduana entre a Argentina e o Chile não tive problemas, e assim toquei até Pucon, que é uma cidade completamente voltada para o turismo esportivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o que me trouxe para aquela cidade foi o que está ao seu lado e que podemos ver a alguns kms de distância: é o vulcão Villa Rica com seus 2.800 metros de altura. E aquele mesmo dia, após ter armado meu acampamento num camping, fui ao Trancura Turismo (agência que faz diariamente expedições para o topo do vulcão). Fiz a minha inscrição e aluguei alguns equipamentos que seriam necessários para a escalada.</p>
<p style="text-align: justify;">Às 7:00h do dia 23/12 estáva-mos eu e mais alguns estrangeiros, esperando a condução que nos levaria para a base da escalada, a qual começaria nos 1.400 metros de altitude. Quer dizer, 1.400 metros para apenas 5 pessoas, porque os outros 10 foram mais uns 150m pelo teleférico. No começo eu só imaginava: -“Como são bonecas esses caras”, mas depois&#8230; quase concordei com eles. Quando nós, que subimos a pé, chegamos na primeira base, formou-se novamente o grupo e continuamos a escalada. Saímos da base, demos 5 passos e já estávamos escalando na neve, e assim foi até no topo. Para quem vê o vulcão de longe, pensa que é moleza escalá-lo, e foi isso o que eu também pensei. Mas a coisa não foi nem um pouco fácil. No total, levamos cinco horas e vinte minutos para chegar lá em cima. Porém, quando chegamos lá, já vestindo as máscaras para não respirarmos o gás do enxofre, é que vimos algo impressionante. As nuvens abaixo de nós não nos permitiram apreciar a cidade de Pucon e os arredores, mas o que nos impressionou mesmo foi o que vimos dentro do Vulcão. As explosões que se davam naquele buraco manchavam de lava as paredes. Uma imagem de contraste muito interessante, onde, por fora, a neve não chega nem a derreter, e por dentro, a poucos metros a temperatura é tão alta que não podemos nem imaginar.</p>
<p style="text-align: justify;">E como para descer todo santo ajuda, a volta foi bem mais rápida. Usando calças especiais de nylon, nós escorregávamos na neve com uma grande velocidade. E isto foi muito divertido. Este dia terminou com uma capotada em minha barraca, pois estava com minhas pernas imprestáveis.</p>
<p style="text-align: justify;">24 de dezembro, pelas 8:00h da manhã eu já estava partindo para Puerto Mont, porém não fazia idéia do frio que me esperava no caminho. Cruzei a Região dos Lagos, mas como estava muito frio e nublado, acabei nem aproveitando a paisagem. Um pouco mais ao sul, passando ao lado do Vulcão Osorno, cheguei a vê-lo apenas por alguns minutos pois estava coberto de nuvens. Para compensar a chuva, as Quedas de Petrobué estavam muito bonitas, (Petrobué é um rio com águas verdes que corre no meio das rochas vulcânicas). E nesse tranco fui tocando até Puerto Mont. Cheguei pelas 5:20 h da tarde e fui direto para o porto comprar minha passagem para cruzar, em uma balsa, até Chaiten. Tinha em mãos a programação da embarcação, portanto já sabia que teria uma viagem às 22:00h daquele dia, que era sexta-feira e a próxima viagem seria apenas na segunda-feira pela tarde. Até por este motivo adiantei por um dia a minha viagem, sendo que iria ficar por uma noite no Vulcão Osorno.</p>
<p style="text-align: justify;">O espanto se deu quando o homem que trabalhava na venda de passagens estava fechando o seu escritório e disse não ter mais lugar para cruzar naquela balsa. Imagina que eu perderia praticamente 3 dias de viagem por causa de um lugarzinho na balsa. Insisti ao extremo até que aquele cara foi falar com seu superior, o qual também não foi nem um pouco amigável. Acabou e pronto, disse ele. Porém, de tanto eu encher o saco, ele me sugeriu voltar um pouco antes da saída do barco e falar com o Capitão. Dito e feito, falei com um dos tripulantes, que foi um cara superbacana, e conseguiu um lugarzinho para a travessia. Ainda esperando o embarque, conheci um estudante de Engenharia Naval, que tinha perdido o vôo para casa e estava tentando pegar uma carona de navio. Confesso que foi a primeira vez que vejo alguém pedir carona num porto. Conheci também alguns motoqueiros. Dois casais de alemães que trabalham em Campinas, que também estavam com motos Super Teneré e dois Chilenos chamados Luis e Juan Antônio, que estavam descendo a Carretera Austral com uma Honda 400 e outra 250. Chovia e fazia muito frio. Pegamos a balsa onde passaríamos boa parte do Natal, pois o cruze era de 12 horas. Existiam vários bancos, mas todos estavam lotados. Acabei passando a noite de Natal dormindo no chão. Até que foi uma experiência interessante!</p>
<p style="text-align: justify;">Chegamos à cidade de Chaiten com muita chuva e frio às 9:00h da manhã. Por sugestão dos alemães fomos todos tomar um bom café da manhã.</p>
<p style="text-align: justify;">Dali para frente, a única maneira de se descer o Chile é pela Carreteira Austral, estrada toda de rípio. Para ver novamente asfalto iria demorar alguns dias. Os alemães, os quais eu não mais encontrei, saíram na frente e os chilenos e eu saímos um pouco depois. Os dois eram muito engraçados e também bastante enrolados. Pelo que eu percebi, eles não eram muito preocupados com suas coisas e muito menos organizados. Apesar do sofrimento com o frio e a chuva, rodamos 361,9 km de estrada de chão. Conhecemos as Termas de Amarillo e fomos até Futaleufú que tem as águas mais rápidas do mundo, onde são feitos campeonatos mundiais de rafting. Os lugares são lindos com rochas por todo lado as quais estavam sendo cobertas por neve em seus pontos mais altos. Na Volta de Futaleufú, furou o pneu traseiro da moto do Luís, fazendo com que nós perdêssemos algum tempo com a troca da câmara. Chegamos às 20:00h em Puyuhuapi, onde achamos uma pensão para podermos secar nossas roupas. Acho que foi a melhor noite de sono, pois estávamos precisando de um lugar aquecido.</p>
<p style="text-align: justify;">Nono dia de viagem e lá fomos nós percorrer mais quase quatrocentos quilômetros, sendo que a maioria destes foi de puro rípio. A chuva e o frio constante faziam com que nós congelássemos em cima da moto. O que nos animava é que a natureza começou a trazer novidades, tais como os impressionantes glaciares, também chamados de ventisqueiros, que são as formações de gelo que se conservam ainda da era Glacial. O primeiro glaciar foi o Colgante, que descia entre as montanhas e formava abaixo uma grande cascata. Neste dia visitamos também, já na costa do Pacífico, o Puerto Cisnes, Puerto Aisen e Puerto Chacabuco, onde comemos um salmão de primeira, regado de um vinhozinho. Essas paradas sempre eram as melhores coisas do dia, pois podíamos fugir um pouco do frio. Ainda antes da parada para o almoço, que foi às 5:00h da tarde, o Luís atropelou um baita cachorro e por pouco não foi com o cachorro para o chão.</p>
<p style="text-align: justify;">Encaramos novamente o frio e seguimos por lindas estradas rodeadas de formações rochosas até a cidade Coihaique. À noite saímos para experimentar algumas cervejas da região.</p>
<p style="text-align: justify;">O terceiro dia de Carreteira Austral e último dia da companhia dos Chilenos foi num visual tremendo. O tempo melhorou completamente, mas parecia que o frio tinha aumentado. Passamos pelo lado de alguns lagos cujas águas eram tão azuis que ficava difícil dizer aonde terminava o lago e aonde começava o céu. É uma região de pesca de muita truta e salmão. Quando chegamos na parte sul do lago General Carrera, almoçamos num restaurante solitário e nos separamos. Os companheiros voltaram e eu toquei o barco para frente até Chile Chico.</p>
<p style="text-align: justify;">Faltando ainda mais ou menos 100 km até Chile Chico, por uma estrada bastante sinuosa e perigosa de rípio, minha moto começou a estralar na roda traseira. Parei e constatei que a coroa estava completamente solta. Fiquei meio nervoso, pois estava no meio do nada e ainda longe da civilização. O jeito foi seguir devagar para completar a mesma quilometragem do dia anterior.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente em Chile Chico, fui à procura de alguém para consertar a moto, mas o problema maior foi que eu estava em uma cidade muito pequena, onde só existia um mecânico e este só mexia em carros. O interessante é que as pessoas lá do sul começam a trabalhar tarde, mas vão às vezes até meia noite. Esta foi a minha salvação, pois já era perto de 22:00h. Quando o mecânico me falou que não entendia de motos, fiquei preocupado. Comecei a desmontar a roda traseira sozinho e só quando cheguei no problema é que ele começou a me ajudar. Era um rolamento que tinha ido pro pau. Procuramos na oficina mas não achamos nada igual. O jeito seria pedir a peça por avião de Coihaique, mas com certeza demoraria pelo menos um dia.</p>
<p style="text-align: justify;">No outro dia levantei cedo, fui até a oficina me encontrar com o mecânico e procuramos outra solução. Comprei outro rolamento e o levei para um torneiro mecânico encamisá-lo. Lá pelas 15:00h eu estava com a minha moto montada, funcionando e pronta para viajar.</p>
<p style="text-align: justify;">Cruzei a aduana novamente para a Argentina, passei pela cidade de Perito Moreno e ainda decidi enfrentar os primeiros kms da famosa Ruta 40. Esta estrada de rípio é famosa por ser um trecho de quase 500 km no meio do nada. É puro deserto, onde tem somente um vilarejo, no km 128, chamado de Bajos Caracoles. E foi até este vilarejo que eu viajei naquele dia. Dava para contar nos dedos o número de casas que existem ali. A minha sorte é que lá tem um posto de combustível e um pequeno hotel para jogar o esqueleto. Antes de dormir, ainda abasteci e joguei conversa fora com o pessoal do boteco.</p>
<p style="text-align: justify;">O décimo segundo dia de viagem começou cedo. A intenção, antes de seguir viagem para o sul pela temível Ruta 40, era de percorrer mais 80km (ida e volta) em uma estrada secundária no meio do deserto que leva até a Cueva de Las Manos, que é uma gruta com várias pinturas de mãos de uns 10.000 anos atrás.</p>
<p style="text-align: justify;">Carreguei a moto pelas 8:00h e fui tomar um café da manhã bem tranqüilo. Ainda conheci três italianos que estão morando em Brasília. Paguei a minha conta, que não foi barata, me despedi do pessoal, e segui em frente. Mas quando fui fazer funcionar a moto é que a coisa ficou preta. Não pegou. Tentei mais uma, duas, três vezes e nada, nem sinal. Pensei que teria afogado, então esperei um pouco e bati no arranque novamente. Já estava a uns 20 min tentando fazer a maldita funcionar, mas não fui feliz. Chamei o pessoal do boteco para me ajudar a empurrar, no meio deles tinha até um guarda (imagino que seje o único daquela cidade). Empurramos, mas não deu certo.</p>
<p style="text-align: justify;">A situação era bem difícil, pois estava no meio do nada, numa cidade onde não tem uma borracharia sequer, quem diria uma oficina para motos. Única coisa que me restava era dar uma de mecânico. Comecei a desmontar a moto. Tirei as laterais, o banco, o tanque, e quando estava para abrir o carburador, percebi que já estava juntando peças demais. E depois pensei: abrir o carburador e fazer o quê? Sem achar o problema, passei a montar a moto novamente.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda quando estava com a moto desmontada, chegou de bicicleta um escocês de mais ou menos uns 65 anos. Entrou no boteco, pediu para tomar um banho, fez um lanche e seguiu viagem por aquelas estradas, completamente sozinho. Isso eu diria que é força de vontade, pois com aquela idade, e de bicicleta, não é qualquer um que faria. Ele me contou que, certa vez, foi de Recife até Foz do Iguaçu pedalando.</p>
<p style="text-align: justify;">Quando saiu, desejou-me sorte, e disse que gostaria que logo eu pudesse passar por ele na estrada. Foi o que eu gostaria também, mas estava um pouco difícil sem ter muita noção de mecânica.</p>
<p style="text-align: justify;">Lá pelas 10:30h da manhã, chegou o dono do hotel, com uma caminhonete. Este chegou a me rebocar com um cabo de aço ao redor de uma quadra inteira, mas a moto não pegou de jeito nenhum.</p>
<p style="text-align: justify;">Passei a mão no único telefone público do local e tentei falar com o mecânico que arrumou a minha moto em Bariloche. Mas quem disse que consegui ligação naquele fim de mundo! Aí que a coisa preteou de vez e comecei a ficar nervoso.</p>
<p style="text-align: justify;">Depois de tanto sofrimento, é que surgiu a idéia de trocar as velas, tarefa que não foi tão fácil, pois é preciso desmontar primeiro o radiador para se ter acesso às velas. Mas com o empréstimo de algumas ferramentas do funcionário do hotel, consegui trocar sem problemas. Então foi só encostar no botão de partida e a moto pegou. Aha! Que alegria! Aquilo sim que foi um alívio. Poderia continuar minha viagem.</p>
<p style="text-align: justify;">Como já eram 13:00h, decidi não perder tempo em conhecer a Cueva de las Manos e segui direto para Chalten (Fitz Roy), após ter pago uma cerveja para o homem que me ajudou, é claro. Mas o que eu não imaginava é que o dia estava por começar. Os primeiros 330 km até Três Lagos foram sem dúvida nenhuma, o trecho mais difícil de toda a viagem. Era deserto e mais deserto, onde eu via mais ou menos um carro a cada hora que passava, mas o que tornava esta estrada de rípio difícil e também muito perigosa, era o vento que vinha do lado do Pacífico soprando em uma velocidade surpreendente de até 120 km/h. Nunca tinha visto coisa igual. A moto andava completamente deitada, mesmo andando em linha reta. O vento, em uma rajada, chegou a me lançar da estrada para fora, quando eu andava perto dos 100 km/h. Por pouco não fui para o chão. Quando cheguei ao posto de combustível de Três Lagos, a moto estava andando só com o cheiro da gasolina. Quase que fico sem combustível. Os 134 km até Chalten não foram nem um pouco melhores, a não ser quando comecei a avistar de longe o morro de Fitz Roy com seus 3.405 m de altura, o que ofereceu um visual impressionante.</p>
<p style="text-align: justify;">Enfim são e salvo, consegui chegar à cidade de Chalten, e logo fui à procura de um lugar para armar minha barraca. Desta vez, o melhor lugar foi ao lado de um rio, onde já tinha alguns franceses acampados. Fiz questão de armar a barraca de frente para o morro para que eu pudesse ficar apreciando-o.</p>
<p style="text-align: justify;">Imagino que os franceses, vendo o meu estado lastimável, ficaram até com pena de mim e me convidaram para tomar um vinho. Isto foi perfeito. Após o brinde, fui até o centro procurar um lugar para tomar um banho, e comprar algo para comer. Voltei para a barraca com uns pães e uma garrafa de vinho Santa Ana, superbarato, pois estava com vontade de comemorar aquele dia que passou, é claro que a inspiração na escolha da bebida deu-se daquele brinde com os franceses. Sequei a garrafa olhando para o morro Fitz Roy pela cortina de minha barraca, e naquela posição acabei dormindo igual a uma trouxa.</p>
<p style="text-align: justify;">Essas economias nos vinhos baratos, às vezes não são muito aconselháveis, mas mesmo com muita ressaca e dor de cabeça, levantei cedo, fui conhecer a cidade e dar uma volta para apreciar a linda paisagem aos arredores do morro Fitz Roy. Logo após o passeio, decidi viajar até Calafate e em seguida conhecer o tão esperado Glaciar Perito Moreno. Novamente peguei muito vento na estrada, porém este foi compensado, pois tive a oportunidade de assistir ao espetáculo do vôo dos Condores, que é algo muito interessante, principalmente quando eles pousam e decolam. Os Guanacos agora estavam por toda parte.</p>
<p style="text-align: justify;">Em Calafate, parei apenas para abastecer, e toquei direto para os glaciares. O tempo começou a piorar, mas quando comecei a ver os primeiros vestígios de icebergs, acabei esquecendo a chuva. Para explicar a beleza do glaciar Perito Moreno, não tenho palavras. As formações de gelo que se preservam ainda da era glacial são tão grandes que atingem 80m de altura e 3,5km de largura. O oxigênio que esta dentro do gelo dá ao mesmo uma coloração azulada quando em contato com a luz. É um visual impressionante. Cheguei a gastar horas ali apreciando o glaciar até que pude ver um desprendimento de gelo razoavelmente grande, o que causou um barulho gigante e uma cena inesquecível.</p>
<p style="text-align: justify;">Para pernoitar, ainda rodei alguns kms para chegar ao camping Lago Roca, onde fui muito bem recebido. O camping é muito bonito, e no lago se pesca muita truta, mas o que fiquei namorando foi uma pena de Condor que eles tinham de enfeite. Era simplesmente enorme. Neste dia havia rodado 372,50 kms.</p>
<p style="text-align: justify;">O último dia do ano começou com chuva e muito frio e ainda não sabia onde iria passar a virada do ano 2.000. Passei novamente por Calafate, onde conheci um brasileiro chamado Pedro (SP), que também estava se aventurando sozinho. Viajamos praticamente juntos, cruzando novamente a aduana para entrar no Chile e chegar ao Parque nacional Torres del Paine, porém eu de moto debaixo de chuva e ele em uma sofisticada Pajero.</p>
<p style="text-align: justify;">Torres del Paine é um enorme parque no sul do Chile, que é considerado uma das grandes belezas do mundo. Suas formações rochosas são formadas por rochas vulcânicas, dando à mesma várias cores bem definidas. Como o próprio nome já diz, as Torres é que não faltam nos pontos mais elevados do parque. Para conhecer bem este local, é possível fazer caminhadas de até uma semana, e só para se ter uma idéia do tamanho do local, é possível andar mais de 130kms em estradas dentro do parque.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda chegando ao parque, fomos direto à administração, para pedir informações. Como seria impossível armar a barraca naquele dia, devido ao frio, a chuva e ao vento, decidi ficar em um refúgio (local parecido com um pequeno albergue) e o Pedro foi para um hotel, que com certeza era bem mais confortável.</p>
<p style="text-align: justify;">Este refúgio era um local muito agradável, com um fogão a lenha bem ao centro, onde pude secar todas as minhas roupas. Conheci muita gente aventureira que estava lá de todas as formas, e lá dormíamos todos no mesmo quarto, sem distinção de cor, raça ou sexo. Neste refúgio, conheci dois alemães muito bacanas chamados Jan e Heiko, que eram da antiga Alemanha Oriental.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a grande virada do ano, combinamos jantar no hotel em que Pedro estava. Foi muito divertido. Tomamos uns champanhes a mais, e depois, somente com os alemães, fomos em uma festa dos funcionários do parque (sem ser convidado, é claro). O pessoal estava assando um carneiro, estavam completamente bêbados e pareciam querer arrumar confusão conosco. No galpão onde foi promovida a festa, havia inúmeras cabeças de guanacos, que eram estudadas para descobrirem a causa de suas mortes, sendo que a maioria era de ataques de pumas.</p>
<p style="text-align: justify;">O dia seguinte amanheceu com um tempo muito bom, sem chuva porém com muito frio. Neste dia fiz um grande passeio pelo parque. Primeiro conheci o lago Grey com seus icebergs e glaciares, e depois segui para as torres onde se encontra o lugar mais bonito do parque. Os ventos estavam muito fortes e constantes. Em alguns lugares, mal conseguia ficar de pé para tirar uma foto.</p>
<p style="text-align: justify;">Armei a minha barraca no camping Las Torres. Encontrei novamente os alemães e ficamos até tarde da noite jogando conversa fora. Tinha rodado aproximadamente 80 km neste dia.</p>
<p style="text-align: justify;">02.01.2000, pelas 10:00h da manha, após ter tomado o café da manhã, me despedi dos alemães e também do parque Torres de Paine e segui para o sul, até Punta Arenas. Na noite que passou, tinha dormido muito mal, o que não me fez bem para este dia. Rodei uns 470 km e conheci lugares muito interessantes como a caverna do monstro Milodon, animal pré-histórico que viveu lá há muito tempo. Inclusive ainda existem alguns ossos expostos no museu da caverna. E também conheci a pinguinera de Otway. Lugar muito bonito, repleto de pingüins de Magalhães, que vão sempre no verão para lá para se acasalarem. São tão mansos, que dá para ficar bem ao lado deles. E finalmente cheguei a Punta Arenas, onde achei um hotel barato para dormir. Saí para jantar, e conheci dois brasileiros que trabalham no navio que faz apoio para a base de pesquisa brasileira na Antártida, serviço que deve ser muito interessante, porém, segundo eles, nem um pouco agradável.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais um dia se passou e agora estava prestes a cruzar o Estreito de Magalhães e entrar na Terra do Fogo. Gostaria de ter pego um ferry que sai de Punta Arenas e cruza direto para Polvenir, mas este sairia apenas às 16:00h, e isto seria muito tarde. Em função disto, rodei uns 180 km a mais só para pegar o ferry em Punta Delgada. O dia foi inteiro debaixo de chuva, e até lá seria o dia mais frio da viagem. Era de congelar até o pensamento. Após 625 kms e depois de ter cruzado novamente para a Argentina, estava em Ushuaia. Finalmente tinha chegado ao meu destino final, na cidade mais austral do mundo. Estava muito contente, pois, mesmo com todos os problemas que já haviam acontecido eu os tinha superado e atingido a minha meta. E agora, daqui para frente, o que eu conseguisse fazer de quilometragem seria lucro. Na cidade de Ushuaia, seguindo a recomendação do Iguaçu, fiquei na Pensão do Pedro e da Ilda Sanches. Lugar muito simples, porém muito legal. Nesta pensão estavam alojados o guia Ivan e alguns curitibanos, os quais estavam fazendo uma expedição com um ônibus semelhante à minha, porém ao contrário. Agora sim me sentia em casa, pois não precisaria me preocupar em levantar cedo no outro dia para seguir viagem, pois ficaria no tão bem falado “Fim do Mundo” por alguns dias.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 04.01 eu rodei apenas 10 km para levar a minha moto a um mecânico (Moto Pablo), pois ela estava com problema novamente no rolamento da coroa e no carburador. Tirei aquele dia para passear na cidade, que é muito bonita. À noite, fui convidado para comer um Borrego na pensão onde estava. Tomamos todas e mais todas, e foi muito engraçado, pois cada um contou um pouco do que já tinha passado nesta viagem maluca ao fim do mundo. E o borrego, preparado pelo falador Pedro Sanches, estava mesmo muito gostoso.</p>
<p style="text-align: justify;">No dia 05/01, primeiramente fui buscar minha moto na oficina. O conserto não foi barato, mas foi feito uma revisão geral, tendo sido trocados as pastilhas de freio, o rolamento da coroa, limpado o filtro de ar e foi dado uma engraxada geral. Com a moto pronta, fui conhecer o parque nacional Tierra del Fuego, e cheguei à baía Lapataia, onde se encontra uma placa indicando o final da estrada, ou seja, para conhecer o mundo daqui para frente, terá que ser por um outro meio de locomoção. Vi vários castores e suas represas e também lagos magníficos. Na cidade novamente, peguei um barco chamado Barracuda, que foi até o canal de Beagle (canal que une os oceanos Pacifico e Atlântico), onde vimos muitos lobos marinhos e pássaros. Fizemos o contorno no Farol Les Eclaireus e voltamos para o continente. Ainda naquele dia, subi de moto em uma montanha bem alta, de onde pude ver a cidade por completo com um visual muito bonito. A noite foi regada de cerveja num Pub da cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">9:00h do dia 06, eu estava me despedindo dos amigos que ali tinha feito e também daquela cidade que por tanto tempo foi meu sonho, e agora se tornaria inesquecível e me punha em direção norte, caminho que me levaria novamente para casa. Porém, como previamente programado, não voltaria pelo mesmo trajeto, pois agora estaria costeando o oceano Atlântico em território argentino. Mas para sair da Terra do Fogo, teria que entrar novamente no Chile, cruzar o Estreito de Magalhães e voltar para a Argentina. Passei pelas duas aduanas e ainda toquei até Rio Gallegos, tendo rodado no dia 578 kms. À noite ainda troquei o óleo da moto e acabei dormindo numa pensão. Fazia muito frio.</p>
<p style="text-align: justify;">Após uma bela noite de sono, parti cortando aqueles ventos fortíssimos de Rio Gallegos, sentido Comodoro Rivadávia, que se encontrava a mais de 800 kms. Porém, no caminho, a 25 km da cidade San Julian, senti que minha moto teria algum problema por que vibrava muito, dando a impressão de que algo estava desbalanceado. Parei a moto e, para minha surpresa, o pneu tinha perdido um pedaço da borracha, tal como fosse um pneu recapado de um caminhão. O problema era muito sério, porque metade do pneu ficou exposto à lona, e estava a pouquíssimos milímetros para chegar na câmara. Consegui chegar na cidade e fui direto à primeira borracharia que avistei. Perguntei ao borracheiro da possibilidade de encontrar um pneu para minha moto na cidade, e sua resposta com uma risada foi de que só encontraria em Comodoro Rivadávia que fica a nada menos de 426 kms, e se fosse para encomendá-lo pelo correio, isto levaria pelo menos dois dias, isso sem mencionar o preço que pagaria.</p>
<p style="text-align: justify;">Decidi não desistir tão cedo, e entrei na pacata cidade de San Julian em busca de uma outra solução. Entrei numa oficina de carros, onde fui muito bem recebido com uma cuia de chimarrão. Um dos mecânicos me levou até a casa de um amigo que fazia trilha de moto, e lá consegui comprar um pneu cross, igual aos que uso para fazer Enduro. Achei que esta opção seria melhor do que esperar aqueles dois dias. Comprei o mesmo e acabei trocando-o na oficina sem pagar um só tostão.</p>
<p style="text-align: justify;">Após um belo de um suador, pensando que agora estaria tudo em ordem, constatei que a suspensão tinha quebrado em sua base. A sorte é que consegui encaixa-la de forma que não caísse muitas vezes no caminho até Comodoro.</p>
<p style="text-align: justify;">Seguindo viagem, na parada para o almoço, brinquei com um filhote de Guanaco que tinha se perdido de sua mãe, e os donos do restaurante o adotaram como cão de guarda. Ele era muito engraçado, mas fiquei um pouco com pena, pois ele estava tentando mamar até no pára-lama da moto. Nesta mesma parada, conheci um argentino chamado Walter, que também viajava de moto, e seguimos viagem juntos. Acampamos naquela noite num Camping em Comodoro Rivadávia, onde ventava muito. Ainda antes de dormir, tomamos umas cervejas na cidade.</p>
<p style="text-align: justify;">Amanheceu o dia 08/01 e fomos logo cedo à procura de um pneu apropriado para minha moto. Após a compra, também aproveitei para soldar o suporte inferior da suspensão, a qual tinha quebrado. Hoje o destino seria rodar 436km até a linda praia de Puerto Madryn. As coisas começaram a melhorar, pois os ventos diminuíram e o clima começou a esquentar.</p>
<p style="text-align: justify;">Por ser um sábado, aquela praia estava cheia de gente e com muita mulher bonita. Passamos o resto do dia só apreciando o local, e à noite armamos nosso acampamento num ótimo camping. O cansaço tomou conta de mim, e acabei capotando em minha barraca.</p>
<p style="text-align: justify;">No domingo, dia 09/01, após o café da manhã, fomos fazer o trajeto que circunda a Península de Valdéz. Um trajeto longo, de 462km, mas extremamente bonito. Lá passamos por Puerto Pirâmides, Punta Delgada, Punta Norte e retornamos para Puerto Madrin. Os Lobos Marinhos, Elefantes Marinhos e Pingüins que lá vivem, são, sem dúvida nenhuma, algo espetacular, sem contar a paisagem, que é formada por paredões de rochas costeadas por uma água azul cristalina do oceano Atlântico. Só não tivemos a sorte de apreciar nem as Baleias nem as Baleias Orcas. Ainda quando estávamos na península pelo rípio, senti que uma curva ficou difícil de fazer devido à velocidade que andávamos, e após, pelo espelho retrovisor, só vi um risco de poeira. Voltei e vi o Walter ajuntando sua moto, pois tinha passado direto na curva. A sorte é que a moto apenas furou o radiador, o qual com um pedaço de dure-pox conseguimos consertar. À noite, a festa foi num Pub da cidade, onde pudemos tomar uma saudosa Brahma de fabricação brasileira destinada à exportação.</p>
<p style="text-align: justify;">Com certeza ficaria em Puerto Madrin se tivesse mais tempo, porém, como já programado, teria que seguir para frente.</p>
<p style="text-align: justify;">Partimos na segunda-feira pela manhã com destino à Viedma (473km). Ainda antes de pegar estrada, troquei o pneu traseiro de minha moto, o qual havia comprado em Comodoro Rivadávia. A primeira parada neste dia foi em Sierra Grande, onde visitei uma enorme mina de ferro. Fomos em um grupo de umas dez pessoas e fizemos o Tour-aventura, que faz uma caminhada pela mina, de 2 horas, onde, em alguns locais era necessário fazer rapel. Chegamos até andar de barco dentro da mina que, em partes, chegava a 60 m de profundidade. Seus inúmeros compartimentos fazem desta mina a maior da América Latina, em se tratando de ferro.</p>
<p style="text-align: justify;">O Walter não quis fazer a visita, e seguiu viagem. Nos encontramos novamente no camping municipal de Viedma, onde passamos a noite. Para ele, a viagem de moto tinha chegado ao fim, pois sua moto estava com alguns problemas na corrente, mas sem dificuldades, conseguiu uma carona de caminhão até Buenos Aires.</p>
<p style="text-align: justify;">Sorte ou não, a minha moto ainda estava em condições de seguir viagem. Saí cedo de Viedma, para poder percorrer os 962 km até Buenos Aires, a tempo de pegar a balsa que cruza até Colônia de Sacramento, no Uruguai. Cheguei ao destino quando já era noite. Então decidi ficar em uma pensão barata que haviam me indicado.</p>
<p style="text-align: justify;">Ansioso para chegar novamente no Brasil, mas ainda com muito chão pela frente, parti pela manhã de Colônia de Sacramento. O roteiro escolhido foi, com certeza, bem aproveitado, pois, após uma rápida passada em Montevidéu, fui rever a praia Punta del Leste que já havia conhecido quando criança, que é uma cidade linda e interessante. Acho que seria uma ótima cidade para passar um fim de semana, com bastante dinheiro, é claro. Também visitei La Paloma, que, além de muito bonita, é famosa por seus inúmeros cassinos.</p>
<p style="text-align: justify;">Um fato interessante que ocorreu foi com a diferença de clima, pois agora estava fazendo um calor quase que insuportável, e para quem estava vindo de temperaturas de 2ºC, não foi nada fácil de se acostumar.</p>
<p style="text-align: justify;">Finalmente, depois de 25 dias fora da terrinha, cruzei de volta a aduana de Chuí, no extremo sul do Brasil. Ainda rodei até a cidade de Rio Grande, para ser mais exato até a praia do Cassino, onde acampei no camping municipal. A cidade estava cheia de gente, especialmente pelo motivo de que naquele camping começaria no outro dia um grande evento, com várias bandas que iriam se apresentar durante alguns dias. À noite ainda aproveitei um pouco da festa do local.</p>
<p style="text-align: justify;">Nas manhãs seguintes as festas, nunca era possível acordar tão cedo, então quando parti do camping, já passava das 10:30h.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesta manhã estava com um impasse a ser resolvido. Teria duas opções para chegar em Porto Alegre. Ou pegar pelos caminhos normais, passando ao lado esquerdo da lagoa dos Patos e cruzando por Pelotas, ou pegar uma balsa para ir até São José do Norte e encarar o lado direito da Lagoa dos Patos, tendo mais duas opções de trajeto. Ou subir pela famosa Estrada do Inferno, que é o começo da BR 101, tendo seu solo completamente arenoso, ou subir alguns metros ao lado direito desta estrada, porém beirando a água do mar pela areia.</p>
<p style="text-align: justify;">A opção escolhida, por sinal não foi a dos caminhos normais. Ainda quando perguntei aos nativos do local como seria a Estrada do Inferno, me falaram que se passasse por lá pagaria todos os meus pecados, pois de moto seria muito difícil em função da areia seca e fina ser muito mole. Decidi então, depois de cruzar a balsa, que iria pela areia da praia, costeando o mar.</p>
<p style="text-align: justify;">No começo foi tudo legal, ainda quando a areia estava meio dura. Mas esta alegria durou pouco. Em poucos metros rodados, a areia ficou muito mole, e minha moto, que pesa mais de 200 kg estava muito difícil de controlar. Mas pensei que poderia melhorar, e não desisti. Mas quanto mais andava, parecia que sempre piorava. E para deixar a coisa ainda mais difícil, o vento e o calor estavam insuportáveis. A sensação era de estar andando no deserto do Saara, pois não se via uma casa sequer, e a imensidão de areia era incalculável. Uma vez ou outra, se via alguém pescando na praia.</p>
<p style="text-align: justify;">Já tinha praticamente me arrependido de ter feito aquele trajeto, quando a suspensão de minha moto que já havia sido soldada quebrou novamente. E o problema é que desta vez ela não ficava mais encaixada por muito tempo, pois a solda fazia com que a suspensão sempre caísse. E quando ela caía, era difícil de encaixar, pois o pé da moto enterrava na areia.</p>
<p style="text-align: justify;">Foram 80 km até o primeiro vilarejo chamado de Bojuru, onde conversei com alguns pescadores os quais me perguntaram se eu sabia que a barra da lagoa estava aberta. Aí perguntei: que barra da lagoa? Foi então que me disseram que existe uma barra a uns 50 km dali, que une o mar e a lagoa dos Patos, quando aberta, e que não seria fácil de cruzar. Mas eles me deram uma dica, que eu deveria de fazer. Costear barra adentro por uns 4 km e após umas casinhas seguir as taquaras fincadas no meio da Lagoa, pois lá não seria muito fundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Já estava desanimado, e com mais esta, quase desisti. Mas desistir e fazer o quê? Toquei em frente, fazendo muita força para equilibrar a moto e encaixando a suspensão quase a cada 2 km. Cheguei à barra e segui o conselho dos pescadores, e quando vi onde deveria cruzar, fiquei ainda mais preocupado. Eram praticamente 1 km por dentro da barra da Lagoa dos Patos, passando por 3 pequenos bancos de areia.</p>
<p style="text-align: justify;">Foi uma experiência formidável, pena não ter ninguém para compartilhar tamanha emoção. Apesar de ser bastante liso, a profundidade não passou de 25cm. Cheguei a descer da moto no meio da travessia, colocar cuidadosamente a moto no pé, e tirar uma foto, mas por 1 segundo que o pé não enterrou e derrubou a moto dentro da água.</p>
<p style="text-align: justify;">Ainda peguei 10 km da Estrada do Inferno, a qual de cara deu de entender o porque de seu nome, e finalmente veio o tão esperado asfalto. Foram no total 140km de areia.</p>
<p style="text-align: justify;">Cheguei à Mostardas, e soldei novamente a suspensão em uma pequena oficina, e aproveitei para tirar o sal da moto. Em Porto Alegre cheguei perto das 10:00h, e ainda saí para jantar com minha amiga Aline. De toda a viagem, esta foi a segunda vez em que pensei que não iria cumprir com o previsto.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora já mais perto de casa, saí de Porto Alegre no dia 14/01 e rodei até Piçarras, onde passei o fim de semana com meus familiares e amigos, destampando várias para comemorar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas como minha viagem terminaria apenas quando chegasse em casa, na tarde do domingo subi a serra debaixo de uma chuva fortíssima, mas cheguei novamente ao local da partida quando já escurecia. O odômetro marcava 45.412,90, tendo rodado um total 14.001,00 km.</p>
<p style="text-align: justify;">A alegria era grande, pois mesmo tendo passado pelos mais diversos obstáculos eu tinha vencido tamanho desafio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: right;"><img decoding="async" class="size-full wp-image-1016 aligncenter" title="Ass Roy" src="https://mundoporterra.com.br/wp-content/uploads/2011/05/Ass-Roy.png" alt="" width="140" height="90" /></p>
<p style="text-align: left;"><strong></strong></p>
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