21/12/2024 a 12/01/2025
Entramos na província de Neuquén e nos aproximamos novamente dos Andes. A viagem ao sudoeste nos mostrava os imponentes vulcões El Tromen e o nevado Domuyo, a maior montanha da Patagônia.
Logo saímos da Ruta 40 para um looping a oeste, após Chos Malal. Margeando o rio Neuquén, a estrada ficou impressionante, com penhascos altos ao nosso lado direito que davam até medo de olhar. A luz do entardecer fez com que tudo ficasse mais quente e bonito. Não paramos para fotografar, apenas curtimos. Tem momentos, que temos que guardar apenas na memória.
Passamos por El Cholar, a linda vila El Hueco e, no caminho para Copahue, nos deparamos com tropeiros levando suas cabras pelas estradas altas dos Andes. Nessa estrada há uma cachoeira maravilhosa, chamada Salto del Agrio e o detalhe: além de sua beleza, ela ostenta árvores araucárias, muito parecidas com as que temos no Brasil, especialmente em Santa Catarina e Paraná. São também conhecidas como araucárias araucanas, espécie nativa da região andina do Chile e da Argentina, considerada uma das árvores mais antigas do planeta.
Essas árvores majestosas, chamadas de pehuéns pelos povos Mapuche, que as consideram árvores sagradas, podem viver mais de mil anos e chegam a ultrapassar 50 metros de altura. Elas quase não mudaram desde a época dos dinossauros. Suas sementes, os piñones, são altamente nutritivas e fazem parte da base alimentar e cultural das comunidades indígenas locais.
Quanto à cachoeira, embelezada pelas imponentes árvores centenárias, suas águas despencam em uma queda livre de 45 metros, formando um poço profundo antes de seguirem pelo rio, cujas rochas avermelhadas e amareladas são resultado da oxidação das formações vulcânicas ricas em ferro — um espetáculo natural que contrasta com o verde da vegetação ao redor.
Um amigo havia nos indicado as Termas de Copahue, logo adiante da cachoeira. Situam-se ao pé do Vulcão Copahue, cuja atividade geotérmica aquece e enriquece as águas da região com uma impressionante variedade de minerais com propriedades benéficas ao corpo.
Há uma infraestrutura grande, uma espécie de hotel/SPA, com várias piscinas, saunas, e outros setores terapêuticos. Começamos pela piscina chamada Laguna Verde. Os atendentes nos explicaram que, de tanto mineral dissolvido, é preciso controlar o tempo de permanência na água e respeitar um intervalo entre uma piscina e outra. Depois, passamos por uma piscina destinada apenas aos pés e, por fim, a cereja do bolo: a famosa piscina de barro ou dos chanchos (porcos em espanhol). Afundávamos braços e pernas na lama quente, sentindo a água borbulhar em nossa pele. Como lá fora estava frio, nos enterrávamos o máximo que dava, ficando quentes e mais relaxados do que nunca. Era difícil sair dali e só saímos porque acabou o nosso tempo.
O último ponto de interesse nesse looping a oeste da Ruta 40 foi Caviahue, uma pequena cidade turística encravada junto a um lago cercado por araucárias. Nosso acampamento foi as margens do lago e em meio essas árvores, que possuem folhas mais densas que as nossas araucárias brasileiras e formavam copas arredondadas. As raízes expostas e os seus troncos nos fizeram perder horas ali, abraçando-os. As cascas são grossas e possuem uma textura bem desenhada.
Era hora de seguirmos a Bariloche, pois o Natal se aproximava e amigos nos aguardavam para passarmos a ceia juntos. A viagem seria longa, então fizemos uma lista de coisas para procurar durante o trajeto, para entreter tanto nós quanto a pequena e inquieta Serena. A ideia veio de um livro que ela havia ganhado de aniversário. Na lista havia araucárias, cavalos, passarinhos e até condores. Quem avistasse algo podia marcar um confere na lista.
Ainda antes de chegarmos em Bariloche, a bucha do tensor traseiro, que sustenta o eixo do carro, se rompeu, deixando o carro instável. Quando acelerávamos, a bucha cedia e o eixo se desalinhava, obrigando-nos a compensar na direção para manter o carro na estrada. Nessa fase da viagem, a paisagem ficou espetacular, com montanhas escultóricas, rios e lagos. Mas também passamos a dividir tudo isso com muitos outros carros, que chegavam à Capital Argentina do Turismo de Montanha para as festas natalinas.
Quem havia nos convidado para o Natal foram Lucas e Maíra, viajantes que possuem um projeto chamado “Adiantes”. Seus amigos e donos da casa em Bariloche, onde passaríamos alguns dias deliciosos, eram Gabriel e Dominique, também viajantes brasileiros do projeto “Vale Liberdade”, que estão morando por lá há algum tempo. A Serena, como toda criança, estava empolgadíssima com o Natal, mas preocupada se o Papai Noel iria encontrá-la na Argentina, já que não estava em um lugar fixo. Sua carta havia sido entregue ao Papai Noel pela prima Yasmin em São Bento do Sul – SC e torcíamos para que ele a encontrasse de fato. Ela trouxe uma alegria diferente para o Natal dos três casais adultos, colocando todos para trabalhar nos enfeites para decorar a casa e criando um clima mágico.
A ceia, feita pelo Chef Gabriel foi deliciosa, com frango recheado com farofa de laranja e porco ao vinho tinto com batatas, acompanhado de couscous da Maíra e maionese de batata da Michelle. Lá pelas 21h30, houve um barulhão no telhado, parecendo que o trenó do Papai Noel havia pousado. A Serena estava com o coração na mão. Quando saímos para ver o que acontecia, ele deve ter entrado e deixado os presentes embaixo da árvore de Natal de papelão confeccionada por nós e dentro das meias chulezentas penduradas na lareira. Não o vimos, mas foi o que aconteceu e foi a maior festa. Não é que ele nos encontrou? Esse Papai Noel…
Passagens em companhia de amigos sempre são memoráveis. Nos dias com eles, aproveitamos a infraestrutura de uma casa para fazer manutenção no carro; fizemos passeios na praia de lago para curtir o calor que fazia, apesar da água congelante; e num dia fomos caminhar até o Refúgio López, uma trilha que ascende 810 metros, num percurso de quase 10 quilômetros. A vista do alto é maravilhosa e a Serena nos surpreendeu, pois aguentou o tranco fazendo o caminho praticamente duas vezes, pois ia, voltava, subia nos troncos para se equilibrar, corria e tudo mais… E as noites eram sempre repletas de boa conversa, regadas a vinho argentino.
A cerca de 350 quilômetros ao sul de Bariloche, há um lugar conhecido como Piedra Parada – a Meca da escalada na Argentina. Antes mesmo de sair para essa viagem, já havíamos combinado com nossos amigos escaladores de casa que passaríamos alguns dias com eles escalando por lá. Mas como nem tudo é só alegria, nosso carro deu problema novamente. Dessa vez a cruzeta do cardã que o mecânico em Belem havia trocado, voltou a quebrar. Achamos que soltou a trava e a tampa acabou caindo. E mais, no caminho para Piedra Parada, na chacoalhação da estrada, que tinha muita costela de vaca, perdemos uma pastilha de freio. A trava da pastilha deve ter quebrado e a pastilha pulado fora. Tentamos encontra-la, mas nada. Para aumentar a lista, além da pastilha de freio, uma porca de vedação da ponta de eixo também foi perdida no trajeto. Santa paciência com tantos problemas mecânicos!!! Nós tínhamos combinado com a Serena que se alguém achasse alguma peça do carro que perdêramos naquela estrada, ganharia dois pedaços de chocolate. Comemos o chocolate, mas foi só como consolo, já que não encontramos nada.
Os dias em Piedra Parada passamos no camping do Sr. Moncada. Quando chegamos lá, Eleandro, Marília e Maicon, nossos amigos já nos aguardavam. O lugar é incrível. O Cañadón de la Buitrera é um cânion de uns quatro quilômetros de comprimento entre paredes de rocha de mais de 100 metros de altura. Lá dentro há condores e chinchilons, uma espécie de coelho triste, algo parecido com nossa chinchila. Na boca do desfiladeiro, em pleno vale do rio Chubut, ergue-se uma gigantesca rocha de 240 metros de altura e 100 metros de base, produto de uma erupção vulcânica ocorrida há 50 milhões de anos que sobressai como um totem na paisagem. Uma pedra única, que brota no meio da planície e que não deve se mover há anos, por isso chamada de Piedra Parada. Tanto no cânion quanto na monumental pedra há várias rotas de escalada, de distintos graus de dificuldade, o que atrai centenas de escaladores do mundo inteiro.
Nós sofremos para escalar, pois devido a secura do ar da patagônico, as sapatilhas de escalada devem ter encolhido, deixando-as apertadíssimas em nossos pés. Além, claro, de estarmos há muito tempo sem treinar. A força nos dedos e a resistência estavam próximas de nulo, mas isso faz parte e já sabíamos que não seria fácil. Não escalamos muito, mas deu para retirar a ferrugem das juntas. E agora, também temos que dividir nosso tempo de esporte com a Serena, que também escala. Tudo fica mais moroso e menos produtivo. Mas esse foi um grande aprendizado nessa fase da vida: a aproveitar o momento. Não precisávamos mandar todas as vias de escalada, mas curtir as que entrávamos. E como não se divertir, com ela escalando motivada pela rocha com desenhos de buraco de queijo. No meio do paredão, naquele visual incrível, Serena fazia suas paradas para morder a pedra como se estivesse mordendo um queijo.
Com nossos amigos escaladores, passamos o Ano Novo. A Serena mais uma vez motivando a turma a sair da zona de conforto e a usar a imaginação. Convenceu a todos, inclusive o Eleandro, para fazermos um amigo secreto com coisas naturais em miniatura. Quer dizer: convencer não convenceu, ela nem deu escolha, kkk. E todos acabaram tendo que sair pelo camping para fazer seus presentes criativos, oriundos de pedras, folhas, gravetos, penas de passarinhos, etc. A ceia de Ano Novo (risoto de carne e macarronada de funghi) foi devorada depois de mais um dia de escalada e regada com vinho argentino. A meia-noite alguns já estavam dormindo, mas a Serena ficou acordada ansiosa para desejar a todos um Feliz 2025!
Depois de cinco dias em Piedra Parada, voltamos a Bariloche, na casa de Gabriel e Domi para consertarmos os novos problemas do Lobo e depois seguimos viagem para a região dos lagos argentinos que, devido ao apuro para chegarmos em tempo no Natal em Bariloche, acabamos passando batido.
Os lagos ao longo da Ruta 40, nas imediações das cidades Villa la Angostura, San Martin de los Andes e Junin de los Andes, ficaram conhecidos como a Rota dos Sete Lagos. É um dos principais corredores turísticos da região, e como estivemos lá no verão, havia muita gente onde quer que parássemos. Visitamos vários mirantes para contemplar rios, cachoeiras, lagos, mas decidimos tocar adiante e encontrar um lago só para nós, para desfrutar da natureza e do sossego por alguns dias. O escolhido foi o lago Lolog, ao norte de San Martin de los Andes e lá sim, montamos acampamento e nos recusamos a ligar o carro por quatro dias.
Fizemos o acampamento com uma boa área para fogueira, montamos a canoa e a vara de pesca e os aproveitamos todos os dias. Pegamos dias ensolarados sem vento, onde víamos as montanhas refletidas no lago de água transparente.
Os passeios de canoa foram vários, aliás, todos os dias. Só não tivemos sorte com a pesca. Também tomamos banho nas águas geladas do lago. A Serena aproveitou para aprender a remar. Aliás, queria remar o tempo todo, e até que se saiu muito bem, apesar de ser ainda pequena para o remo tão grande. Com a canoa, beirávamos o lago e nos deparávamos com uma natureza linda, intocada, com árvores centenárias. A canoa, parecia flutuar naquelas águas cristalinas. Esse foi, sem dúvida, um dos melhores acampamentos de toda a viagem.
Da região dos lagos argentinos, nosso destino seria a região dos lagos chilenos. O caminho escolhido para a fronteira foi o que passa ao lado do imponente Vulcão Lanín. A última atração dessa parte da Argentina foi o Lago Tromen, com suas águas geladas e muitos banhistas em suas areias pretas. E novamente o destaque ficou por conta da floresta, com árvores Coigue e Lenga, com troncos de diâmetros superiores a um metro.
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